Um amigo relata-me que certas preocupações da vida consomem seu tempo, mais do que ele gostaria.
→ “Tenho de fazer isto.”
→ “Esqueci-me novamente de passar em tal lugar…”
→ “E se aquilo der errado?”
→ “Preciso tomar essa decisão em breve… mas ainda dependo da resposta de Fulano… mas não quero mandar mensagem cobrando-o; não à noite…”
São incômodos legítimos que todos os adultos têm. O problema é que às vezes a preocupação desorganiza a mente, e o corpo se inquieta, e o ser inteiro é impelido a uma ação destrambelhada e intempestiva, ou então se vê paralisado pela incerteza ou por não poder agir ainda.
Respondo a este amigo explicando como tenho lidado com boa parte das minhas preocupações, num processo que podemos chamar de “aterramento”.
Toda vez que vejo minha tensão mental elevar-se por preocupação com tarefas, pego uma folha de bloco, pedaço de papel, post-it ou o que seja, e faço uma lista contendo aquele afazer ou tema, e tudo o mais que está no mesmo horizonte de ação.
Isso é bem comum à noite. Antes de escrever este texto, por exemplo, fiz uma lista com as refeições do meu filho (ele ainda não tem um ano) para o dia seguinte. Assim já fiquei capacitado para abrir a geladeira e o congelador na hora mais oportuna, conferir os ingredientes disponíveis e os alimentos já prontos.
O cardápio me levou a uma segunda lista, a das tarefas do dia seguinte, que incluíam cozinhar mais feijão. A lista de tarefas, por sua vez, me levou a pensar em outros temas — todos aterrados a seu tempo —:
- i) Afixada na geladeira, já havia uma relação dos próximos alimentos que preciso cozinhar e congelar. Como o frango estava acabando, acrescentei-o a essa lista.
- ii) Ainda na geladeira, fica a lista do supermercado da semana, que foi incrementada com alguns legumes faltantes.
Parece complicado, mas não deve ser.
Aqui o segredo é deixar de ser formalista e metódico, e a regra é que a confecção da lista jamais se torne mais uma preocupação. O aterramento não deve inserir energia no circuito, apenas retirá-la!
Na prática, muitas vezes as listas vão se realizando pari passu com tarefas simples, como tirar uma porção do congelador, fazer uma pergunta à minha esposa ou consultar o calendário. Não importa muito se vou seguir à risca cada uma dessas tarefas, nem se vou dar conta de tudo no mesmo dia. Também não me obrigo a dar um nome para a lista, categorizá-la ou repetir o mesmo tipo de lista por dias seguidos. Hoje posso aterrar as preocupações relativas ao meu trabalho, amanhã só aquelas concernentes a este site, e depois de amanhã não fazer lista nenhuma.
O importante é que o ato de encostar a caneta no papel funcione exatamente como um alívio de sobrecarga elétrica na terra — como a dispersão imperceptível que se opera quando a enorme energia de um raio encontra a ponta do pára-raios e é conduzida até o chão para desaparecer no subsolo.
Afinal, o aterramento de idéias é também uma espécie de rede que montamos, uma rede semi-material, composta de papel, caneta e atos reflexos, quase automáticos, como dirigir-se a um lugar e escrever duas, três ou dez palavras. É uma rede oculta sempre pronta para absorver nossas tensões e tenções diárias, transferindo a preocupação do cérebro para a ponta dos dedos, e dos dedos para o bloco de notas.
Quando uma obrigação relampeia em nossa mente, o sistema está lá, pronto para absorver o choque. Aumentamos um item na lista, passamo-la a limpo, colocamos as tarefas em ordem de prioridade, se isso nos ajudar. Gastamos cinco minutos, dez que sejam, mas passaremos à atividade seguinte com a atenção depurada, e iremos dormir com as nuvens de preocupações já bastante dissipadas no céu de nossa consciência.

