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CONCORDÂNCIA VERBAL COM SUJEITO COMPOSTO
PARTE I –
VERBO NA POSIÇÃO NORMAL (APÓS O SUJEITO)
(Manuel Said Ali, Gramática Histórica da Língua Portuguesa — Excerto editado e organizado por este site)
[A] ► Verbo que se enuncia depois de sujeito múltiplo, constituído por substantivos no singular associados pela copulativa “e”, ocorre ora com a forma plural ora com a forma singular. A primeira destas linguagens é a mais usada em português hodierno. Quinhentistas, principalmente Camões, e também seiscentistas manifestam predileção pelo emprego do verbo no singular quando os sujeitos são nomes abstratos e o segundo termo serve de completar, esclarecer ou reforçar o sentido do primeiro:
◽ Triste ventura e negro fado os chama neste terreno meu (Camões, Lusíadas, 5, 46);
◽ Teu seguro porto, cuja brandura e doce tratamento dará saúde a um vivo, e vida a um morto (Camões, Lus., 5, 85);
◽ Cuja manha e grande esforço faz inveja à gente (Camões, Lus., 8, 26);
◽ Se alta fama e rumor deles se estende (Camões, Lus., 8, 40);
◽ Todo seu propósito e vontade era deter ali os descobridores da Índia (Camões, Lus., 9, 1)
◽ A sobriedade e temperança nos nossos Reis naturais é tão louvada, que de mui poucos sabemos que bebessem vinho (R. Lobo, C. na Al.);
◽ O que a natureza, a arte e a graça organizou e uniu naquelas extremidades (Vieira, Serm.).
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[B ] ► Considerados como entidades distintas, ou coisas personificadas, os termos abstratos pedem o verbo no plural:
◽ Mas a natura ferina e a ira não lhe compadecem que as costas dê (Camões, Lusíadas, 4, 35).
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[C] ► Nos seguintes passos o emprego do singular explica-se pela sínese [silepse], tendo o escritor em mente respectivamente “a minha pátria, assim como o sol”, “a vontade”, “o ferro mortal”, “o tempo”:
◽ Somente sei que é gente lá de Espanha, onde o meu ninho e o sol no mar se banha (Camões, Lus., 7, 68);
◽ A maior perigo, a mor afronta, por vós, ó rei, o espírito e carne é pronta (Camões, Lus., 4, 80);
◽ Em cujo corpo a morte e o ferro entrava (Camões, Lus., 4, 40);
◽ Foge que o vento e o céu te favorece (Camões, Lus., 2, 61).
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[D] ► Se o verbo denota atos que ocorrem sucessivamente com os diferentes sujeitos, usa-se no plural:
◽ O olho irônico, a face risonha e a meia fronte de Alle surdiram junto à aresta do alisar de mármore (Herculano, Monge de Cister);
◽ O mestre d’Avis parecia distraído a princípio; mas, pouco a pouco, a atenção, logo a curiosidade, depois o interesse, o espanto, a agitação pintaram-se-lhe sucessivamente no gesto (ibidem).
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[E] ► Denotando os diversos sujeitos no singular pessoas, animais ou objetos concretos perfeitamente definidos e distintos uns dos outros, o verbo, vindo depois, toma a forma plural:
◽ Já Flegon e Piróis vinham tirando cos outros dous o carro radiante (Camões, Lusíadas, 5, 61);
◽ Noto, Austro, Bóreas, Áquilo queriam arruinar a máquina do mundo (Camões, Lus., 6, 76).
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[F] ► Se, depois de enumerados vários sujeitos ligados pela conjunção “e”, se emprega recapitulativamente a palavra “tudo”, o verbo que se segue toma a forma do singular, concordando somente com este termo recapitulativo:
◽ Os campos, as flores, as aves, os rios, tudo nos serve de jogo inocente (M. Aires, Reflexões sobre a Vaidade);
◽ O falso e o verdadeiro, a verdade e a mentira, tudo passa (Vieira, Sermões);
◽ A rodeira e as cuvilheiras e as sergentes, tudo abalara para assistir ao grande drama de Corpus (Herculano, M. de Cister);
◽ A estas palavras, rei, cavaleiros, frades, povo, tudo se pôs de joelhos (Herculano, Lendas e Narrativas).
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[G] ► Excetuam-se dessa regra [do “tudo” recapitulativo] aquelas construções em que, fazendo-se uso do verbo “ser”, o predicado é expresso por um substantivo no plural:
◽ Pontos, coros e os mesmos comparsas, tudo eram parentes ou amigos íntimos (Garrett, Frei Luís de Sousa).
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[H] ► “Tudo” pode referir-se a um número mais ou menos considerável de indivíduos que temos em mente; o verbo nem por isso deixa de conservar-se no singular:
◽ Tudo ficou pasmado; mas vendo e ouvindo o rir descompassado do ichacorvos, o povo começou a refluir para a praça (Herculano, Lendas e Narrativas).
◽ Dispara tudo em longas gargalhadas (Castilho, Fastos).
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[J]* ► Se o substantivo precedido de “e” se usa a modo de explicação parentética, generalização ou especialização, ele não influirá na concordância:
◽ Ensine logo Adão, ensine o homem. Eva e a mulher [= Eva e, em geral, a mulher] não ensine (Vieira, Sermões).
* NOTA DO BLOG: em séries alfabéticas passíveis de aglutinação/subdivisão em números, evitamos incluir as letras “I” e “O”, para evitar confusão com os algarismos “1” e “0”.
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Leia também: Said Ali – Concordância verbal – Sujeito composto (II) — Posição invertida – verbo antes do sujeito.
