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CONCORDÂNCIA VERBAL COM SUJEITO COMPOSTO
PARTE II –
VERBO NA POSIÇÃO INVERTIDA (ANTES DO SUJEITO)
(Manuel Said Ali, Gramática Histórica da Língua Portuguesa — Excerto editado e organizado por este site)
[A] ► Se se enuncia o predicado primeiro que os diversos substantivos-sujeitos ligados pela conjunção “e”, e sendo estes nomes de pessoas diferentes, o verbo se usa geralmente no plural:
◽ Vem a fazenda à terra… Co’ ela ficam Álvaro e Diogo (Camões, Lusíadas, 8, 94).
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[B] ► Casos há todavia de verbo no singular concordando apenas com o nome mais próximo. Mas esta linguagem não é favorecida por todos os escritores igualmente. Nos Lusíadas há um exemplo, em Heitor Pinto vários; Vieira, em certas ocasiões, insiste em pôr o verbo no singular. Nestes casos excepcionais parece quererem os escritores pôr em relevo atos que ocorrem sucessivamente, podendo-se repetir o verbo para cada sujeito. “Passou Fídias e Lisipo” equivaleria a “Passou Fídias e passou Lisipo”:
◽ Tentou Perito e Teseu, de ignorantes, o reino de Plutão horrendo e escuro (Camões, Lusíadas, 2, 112);
◽ Como conta Suetônio Tranquilo e Eutrópio (H. Pinto);
◽ Na pequena ilha de Chou nasceu Hipócrates, e Fídias, e Apeles, um príncipe dos médicos, outro dos imaginários, outro dos pintores (ibidem);
◽ Vote cada um no que professa… Nos casos da religião vote Samuel e Eli; nos negócios da guerra vote Joab e Abner; … nas ocorrências da navegação e do mar… vote Pedro e André (Vieira, Sermões);
◽ Ainda que lho pedisse Noé, Jó e Daniel, não lho havia de conceder (ibidem);
◽ Ainda que interceda Noé, Jó e Daniel… [quatro vezes na mesma página] (ibidem);
◽ Do mesmo pai nasceu Isaque e Ismael (ibidem);
◽ Na mesma hora nasceu Jacó e Esaú, um foi amado de Deus, outro aborrecido (ibidem);
◽ Na mesma terra nasceu Caim e Abel, e um foi o primeiro tirano, outro o primeiro mártir (ibidem);
◽ Na estatuária passou Fídias e Lisipo; na pintura passou Timantes e Apeles; na arquitetura passou Meliágenes e Demócrates; na música passou Orfeu e Anfião; na história, Tucídides e Lívio (ibidem);
◽ E lá vai o nosso governo, os nossos lugares e dignidades, e a nossa nação (Bernardes, Nova Floresta).
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[C] ► A timidez quanto ao emprego do verbo no singular desaparece entre os escritores de todos os tempos, desde que os sujeitos pospostos ao verbo se refiram a coisas ou sejam nomes abstratos. É sintaxe sobretudo usada quando se trata de coisas semelhantes, ou quase semelhantes, ou pouco distintas:
◽ Se a tanto me ajudar o engenho e arte (Camões, Lusíadas, 1, 2);
◽ Muito pouco val esforço e arte contra infernais vontades enganosas; pouco val coração astúcia e siso se lá dos céus não vem celeste aviso (ibidem, 2, 59);
◽ Mas nunca poderá com força ou manha a fortuna inquieta pôr-lhe noda, que lh’a não tire o esforço e ousadia dos belicosos peitos (ibidem, 3, 17);
◽ Chega-se o prazo e dia assinalado (ibidem, 6,58);
◽ Mas contigo se acabe o nome e a glória (ibidem, 4, 12);
◽ O que ali fez a malícia e a crueldade dos ministros, deve em nós fazer o fervor e a prudência do espírito (Bernardes, Nova Floresta);
◽ Ele folga e ri assentado no trono que lhe deu a traição e o perjúrio (Herculano, Eurico);
◽ Padecer e calar é o que nos manda o evangelho e a santa regra (Herculano, Monge de Cister);
◽ Dessa fonte inexaurível mana a resignação e a paz (Herculano, Lendas e Narrativas);
◽ Esperando que da morada dos mortos surgisse para mim descanso e esquecimento (Herculano, Eurico);
◽ Essa loucura que o cheiro de sangue produz é um respiradouro por onde resfolegará a indignação e a cólera entesourada por anos neste coração (ibidem).
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[D] ► Exemplos de uma e de outra concordância com sujeitos denotando coisas concretas:
◽ Cobrem ouro e aljôfar ao veludo (Camões, Lusíadas, 2, 95);
◽ Não lhe aproveita já trabuco horrendo, mina secreta, aríete forçoso (ibidem, 3, 97);
◽ Lustra c’o sol o arnês, a lança, a espada (ibidem, 3, 107);
◽ Diga-me agora a terra e o céu, digam-me os homens e os anjos (Vieira, Sermões);
◽ Fugiu dele o céu e a terra (ibidem).
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[E] ► Emprega-se o verbo no plural quando a cada um dos sujeitos pospostos se segue um complemento verbal diferente para cada caso e se faz uma pausa depois do verbo comum (a qual às vezes vem indicada pela pontuação):
◽ Deste modo receberam itálico o prêmio da sua fé, e seu competidor o castigo do seu pecado (Man. Bernardes, Nova Floresta);
◽ Necessitam aqui o Mestre de alguma explicação, e o discípulo de seu vexame (ibidem).
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[F] ► Verbo no singular e sem pausa ocorre em:
◽ Por haver El Rei Dom João empenhado na facção o poder, o infante Dom Luís a pessoa.
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Leia também: Said Ali – Concordância verbal – Sujeito composto (I) — Posição normal – verbo após o sujeito.
