P – 12. Como dizer que alguém chorou

I. Simenon na gaiola de vidro

O romancista Georges Simenon, conhecido por escrever seus livros com assombrosa rapidez, aceitou certa feita o desafio de redigir um romance inteiro dentro duma espécie de aquário de vidro, montado em praça pública. 

Em troca de um pagamento generoso pelo espetáculo, Simenon sentar-se-ia diante da máquina, à vista de todos os transeuntes e espectadores, e começaria a bater a história, cujo tema e personagens seriam definidos pelo público. Cada página escrita seria então afixada no vidro, de modo que a audiência poderia não apenas acompanhar a feitura do romance, de cabo a rabo, mas também o ler em tempo real, à medida que era escrito.

Como nos relata Pierre Assouline, na sua conhecida biografia do romancista, Simenon não se tornou efetivamente o “escritor do aquário de vidro”, pois o projeto de “reality show” acabou sendo cancelado. Todavia, cabe perguntar: caso se concretizasse, será que tal evento teria algo a nos ensinar (ou a quem o assistisse presencialmente na Paris dos anos 1930) sobre o trabalho do escritor?

Arrisco dizer que informaria pouco. Apesar da total visibilidade do corpo através da gaiola de vidro, o núcleo vivo de seu trabalho literário permaneceria invisível. Ninguém seria capaz de lhe ouvir os pensamentos, de conhecer as fontes e referências que lhe chegavam pela memória, de captar a forma como ouvia as próprias frases dentro da cabeça, a dúvida entre uma palavra e outra, a antecipação do enredo, e todo o trabalho criativo que acontece quando o dedo hesita sobre as teclas da máquina de datilografar.

Em vez disso, o verdadeiro aquário de vidro para a mente do escritor (ou do artista, do estudioso etc.), podemos imaginá-lo como um hipotético acesso livre àquilo que chamamos sua máquina de guerra — de preferência com a possibilidade de interrogar o próprio autor sobre seus papéis e sobre seu trabalho. 

Para o caso de Simenon, chegamos mais perto disso com sua entrevista à Paris Review, por exemplo.

II. Figurinhas

Este artigo pode ser tomado como um exemplo da “matéria prima” que subsidia o trabalho invisível de um escritor. Não de um grande romancista, nem de um intelectual famoso, mas de alguém a cujos papéis de trabalho (digitais inclusos) eu tenho acesso pleno: eu mesmo.

Apresento aqui cerca de quarenta figurinhas do meu álbum, que decidi pôr numa recolha cujo tema comum é o choro, o pranto, as lágrimas. Quarenta itens pinçados dum corpus com mais de três mil frases que me chamaram a atenção pelas mais diversas razões (de vernaculidade, de sintaxe, de estilo) nos últimos oito anos de trabalho. Um punhado de cartas do meu “deck” com um tema comum, que decidi expor com uma finalidade principalmente didática.

Confesso que hesitei um pouco em fazê-lo — e não por avareza, como se estivesse cioso do ouro verbal que granjeei virando folhas. Apesar da menção numérica que acabo de fazer, penso que a hesitação inicial tenha uma explicação mais sutil que a sovinaria.

É que por vezes me pego cogitando naquele longo poema narrativo que um dia começarei — a tal aventura fantástica dos gatos com capa e espada, que buscam salvar uma princesa e são devotos de Santa Maria —, ou em outras tantas histórias e crônicas que posso vir a escrever, e me parece que ponho a perder certa impressão de originalidade, quando me disponho a entregar com transparência tantas das fontes que concorrem para a formação do meu próprio estilo.

Pois as minhas lágrimas de prosa, se caírem de duas a duas em uma cena dramática, serão reencontradas em Eça; e se jorrarem como punhos numa passagem cômica, podem acabar reduzidas a simples cópia da tradução de Castilho para o Dom Quixote. Lágrimas amargas, ardentes; lágrimas limpas; lágrimas que nadam os olhos, lágrimas que orvalham, que rociam, que regam as bochechas. Lágrimas feito um rio. Qual delas poderá ser reputada original, diante de tal lista?

É um risco que decidi correr. Afinal, talvez o poema narrativo nunca saia. E talvez a autenticidade seja coisa muito mais complexa do que escrever frases nunca escritas antes.

III. Co’o rosto banhado em ágoa

Como eu já disse, a contraparte desse risco é certo valor didático. 

Espero, ao abrir o jogo, aguçar a atenção de vocês, leitores e escritores, para a forma como os autores usam a língua a seu favor ao tratar de um assunto específico. Do mesmo modo, intento com esta coletânea sugerir uma estratégia possível de registrar (e ordenar) aquilo a que cada um de vocês presta atenção durante suas próprias leituras.

A par dos benefícios acima (atenção à forma + estratégias de anotação), penso que o próprio tema do choro suscita reflexões, que são aguçadas cada vez que encontramos uma nova forma de falar sobre ele.

As lágrimas são o sinal visível dum estado de alma. Nem sempre de tristeza, nem sempre de dor. Podem-no ser de alegria, de orgulho, de desespero, de raiva, de autopiedade, e até de alguma comoção pouco definível. Podem ser mansas ou turbulentas, silentes ou sonorosas, sinceras ou falsas.

Mas mesmo na emoção simulada, ou na mais confusa das crises de sentimento, as lágrimas são sempre sinal de algo que atravessa o núcleo do ser humano, a dimensão essencial da pessoa.

Nenhum pranto é desinteressante, e talvez seja por isso que os escritores se esforçam tanto para traduzir com precisão esse elemento tão exterior, que exprime uma verdade tão íntima.

Tal precisão, como perceberemos no florilégio, pode ser descritiva (reproduzir o aspecto do choro, de forma realista ou figurada); pode ser intensiva (comunicar o grau de suavidade ou violência do sentimento que acompanhou as lágrimas) e pode ser interpretativa (sugerir, pela imagem visível, uma realidade invisível). Afinal, existe de fato mais de uma modalidade de precisão na escrita.

Mas passemos sem mais demora à nossa coleção de figurinhas:

IV. Como os escritores dizem que alguém chorou (Florilégio)

N.B.: A indicação das fontes vem logo após o respectivo trecho, em forma compacta. Em seguida há às vezes um esboço de análise, palavras-chave etc.

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V. Nota final

Do mesmo modo que as três mil frases originaram uma seleta de quarenta (depois divididas em dois blocos com fronteira não lá muito estanque), diversos subgrupos e reorganizações seriam possíveis. 

Há na nossa coleção as lágrimas realistas, as exageradas, as metafóricas. Há as tristes e as não-tristes. Há-as visuais, auditivas, sinestésicas. Há explícitas e há sugeridas. Há aquelas de descrição breve e aquelas de longas palavras. Lágrimas originais e lágrimas clichê

O rearranjo dos exemplares é como um jogo de dominó, em que as peças vão sendo justapostas por conterem ao menos uma parte similar. Também gosto de pensar nessa “coleção de figurinhas” como um baralho infinito desses jogos conhecidos como Trading Card Games (TCG) ou Collectible Card Games (CCG), como Yu-Gi-Oh, Pokémon, Magic the Gathering.

O adjetivo “colecionável” me agrada de forma especial, aqui; e embora eu conheça pouco de cada um desses jogos, aplico-os ao caso concreto da seguinte maneira:

Cada frase é como uma carta que pertence à nossa coleção. Essa carta tem seus atributos ou seus “poderes”, e tem como que um valor próprio, ou um conjunto de valores. Uma frase sublinhada no livro é uma carta. A mesma frase, agora agregada a uma anotação, é uma versão especial e mais valiosa daquela carta. Uma frase com uma boa anotação vale mais ainda. Uma carta bem anotada e com referenciamento cruzado a outras cartas e notas, é praticamente um texto pronto: uma postagem, um conto, uma palestra, às vezes até um livro em germe.

Assim como nos ditos CCGs (ou TCGs), as cartas podem ser colecionadas por seu valor próprio, mas também para o jogo. E o jogo no nosso caso é a escrita, o discurso, a conversa, a aula etc. Colecionamos as cartas, organizamo-las em caixas, selecionamos as melhores e mais queridas. Revisitamo-las de quando em quando, aprimoramo-las com uma anotação suplementar, uma nova conexão… Descartamos (cancelamos) algumas de tempos em tempos, agregando-as a outras ou transferindo-as para outra parte. Abrimos espaço para as novidades, e procuramos novidades lembrando sempre daquilo que já temos.

Alguns leitores mais atentos terão percebido, por exemplo, que o título do capítulo “III” deste artigo é “Co’o rosto banhado em ágoa”, uma linha do grande poema Sôbolos Rios, de Luís de Camões. E terão notado que esse mesmo trecho, embora fale de prantos, não compõe as séries “A” e “B” apresentadas no nosso “deck” lacrimal.

Explico: é que para algumas figurinhas que colecionei no início deste ano, a partir da leitura parcial das Cantigas de Santa Maria e da edição crítica de Souza da Silveira para alguns Textos Quinhentistas, decidi criar uma terceira série de exemplos (letra “C”), que ainda não está digitada. O poema camoniano citado é justamente o primeiro do volume, repleto de comentários sintáticos, filológicos etc., e integrará oportunamente a série “C”.

E não seria de estranhar a vinda de uma letra “D” para os dicionários — analógicos, de frases feitas, de sinônimos — com alguma coisa respigada em Rocha Pombo, Antenor Nascentes, João Ribeiro, Francisco Ferreira Azevedo, Carlos Spitzer…

É do primeiro desses dicionaristas esta saborosa série de sinônimos:

E assim seguimos em frente.

Nossa coleção de figurinhas cresce com as leituras, e com elas se aperfeiçoa — e com a vida.

Eis a nossa única fonte (amiúde involuntária) de autenticidade.

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