I. Simenon na gaiola de vidro
O romancista Georges Simenon, conhecido por escrever seus livros com assombrosa rapidez, aceitou certa feita o desafio de redigir um romance inteiro dentro duma espécie de aquário de vidro, montado em praça pública.
Em troca de um pagamento generoso pelo espetáculo, Simenon sentar-se-ia diante da máquina, à vista de todos os transeuntes e espectadores, e começaria a bater a história, cujo tema e personagens seriam definidos pelo público. Cada página escrita seria então afixada no vidro, de modo que a audiência poderia não apenas acompanhar a feitura do romance, de cabo a rabo, mas também o ler em tempo real, à medida que era escrito.
Como nos relata Pierre Assouline, na sua conhecida biografia do romancista, Simenon não se tornou efetivamente o “escritor do aquário de vidro”, pois o projeto de “reality show” acabou sendo cancelado. Todavia, cabe perguntar: caso se concretizasse, será que tal evento teria algo a nos ensinar (ou a quem o assistisse presencialmente na Paris dos anos 1930) sobre o trabalho do escritor?
Arrisco dizer que informaria pouco. Apesar da total visibilidade do corpo através da gaiola de vidro, o núcleo vivo de seu trabalho literário permaneceria invisível. Ninguém seria capaz de lhe ouvir os pensamentos, de conhecer as fontes e referências que lhe chegavam pela memória, de captar a forma como ouvia as próprias frases dentro da cabeça, a dúvida entre uma palavra e outra, a antecipação do enredo, e todo o trabalho criativo que acontece quando o dedo hesita sobre as teclas da máquina de datilografar.
Em vez disso, o verdadeiro aquário de vidro para a mente do escritor (ou do artista, do estudioso etc.), podemos imaginá-lo como um hipotético acesso livre àquilo que chamamos sua máquina de guerra — de preferência com a possibilidade de interrogar o próprio autor sobre seus papéis e sobre seu trabalho.
Para o caso de Simenon, chegamos mais perto disso com sua entrevista à Paris Review, por exemplo.
II. Figurinhas
Este artigo pode ser tomado como um exemplo da “matéria prima” que subsidia o trabalho invisível de um escritor. Não de um grande romancista, nem de um intelectual famoso, mas de alguém a cujos papéis de trabalho (digitais inclusos) eu tenho acesso pleno: eu mesmo.
Apresento aqui cerca de quarenta figurinhas do meu álbum, que decidi pôr numa recolha cujo tema comum é o choro, o pranto, as lágrimas. Quarenta itens pinçados dum corpus com mais de três mil frases que me chamaram a atenção pelas mais diversas razões (de vernaculidade, de sintaxe, de estilo) nos últimos oito anos de trabalho. Um punhado de cartas do meu “deck” com um tema comum, que decidi expor com uma finalidade principalmente didática.
Confesso que hesitei um pouco em fazê-lo — e não por avareza, como se estivesse cioso do ouro verbal que granjeei virando folhas. Apesar da menção numérica que acabo de fazer, penso que a hesitação inicial tenha uma explicação mais sutil que a sovinaria.
É que por vezes me pego cogitando naquele longo poema narrativo que um dia começarei — a tal aventura fantástica dos gatos com capa e espada, que buscam salvar uma princesa e são devotos de Santa Maria —, ou em outras tantas histórias e crônicas que posso vir a escrever, e me parece que ponho a perder certa impressão de originalidade, quando me disponho a entregar com transparência tantas das fontes que concorrem para a formação do meu próprio estilo.
Pois as minhas lágrimas de prosa, se caírem de duas a duas em uma cena dramática, serão reencontradas em Eça; e se jorrarem como punhos numa passagem cômica, podem acabar reduzidas a simples cópia da tradução de Castilho para o Dom Quixote. Lágrimas amargas, ardentes; lágrimas limpas; lágrimas que nadam os olhos, lágrimas que orvalham, que rociam, que regam as bochechas. Lágrimas feito um rio. Qual delas poderá ser reputada original, diante de tal lista?
É um risco que decidi correr. Afinal, talvez o poema narrativo nunca saia. E talvez a autenticidade seja coisa muito mais complexa do que escrever frases nunca escritas antes.
III. Co’o rosto banhado em ágoa
Como eu já disse, a contraparte desse risco é certo valor didático.
Espero, ao abrir o jogo, aguçar a atenção de vocês, leitores e escritores, para a forma como os autores usam a língua a seu favor ao tratar de um assunto específico. Do mesmo modo, intento com esta coletânea sugerir uma estratégia possível de registrar (e ordenar) aquilo a que cada um de vocês presta atenção durante suas próprias leituras.
A par dos benefícios acima (atenção à forma + estratégias de anotação), penso que o próprio tema do choro suscita reflexões, que são aguçadas cada vez que encontramos uma nova forma de falar sobre ele.
As lágrimas são o sinal visível dum estado de alma. Nem sempre de tristeza, nem sempre de dor. Podem-no ser de alegria, de orgulho, de desespero, de raiva, de autopiedade, e até de alguma comoção pouco definível. Podem ser mansas ou turbulentas, silentes ou sonorosas, sinceras ou falsas.
Mas mesmo na emoção simulada, ou na mais confusa das crises de sentimento, as lágrimas são sempre sinal de algo que atravessa o núcleo do ser humano, a dimensão essencial da pessoa.
Nenhum pranto é desinteressante, e talvez seja por isso que os escritores se esforçam tanto para traduzir com precisão esse elemento tão exterior, que exprime uma verdade tão íntima.
Tal precisão, como perceberemos no florilégio, pode ser descritiva (reproduzir o aspecto do choro, de forma realista ou figurada); pode ser intensiva (comunicar o grau de suavidade ou violência do sentimento que acompanhou as lágrimas) e pode ser interpretativa (sugerir, pela imagem visível, uma realidade invisível). Afinal, existe de fato mais de uma modalidade de precisão na escrita.
Mas passemos sem mais demora à nossa coleção de figurinhas:
IV. Como os escritores dizem que alguém chorou (Florilégio)
N.B.: A indicação das fontes vem logo após o respectivo trecho, em forma compacta. Em seguida há às vezes um esboço de análise, palavras-chave etc.
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💠 COMPILADO LÁGRIMAS. SEÇÃO “A” – Versões de “chorar” e “lágrimas”.
A.01 💧 Nadando-lhe os olhos em lágrimas — (F-5⊖) Ilíada, CAN, p.95 — TELG: (1) # VOCABULÁRIO. FRASE PRONTA. FRASE FEITA. LOCUÇÃO. EXPRESSÃO IDIOMÁTICA (CRISTALIZADA). Metáfora, Engenhosidade, Palavra por outra; . Chorar, olhos marejados. // 2) dativo de interesse com valor possessivo (lhe)”
A.02 💧 Odisseu, entrementes, liquefazia-se em lágrimas — (F-39⊖) Odisseia, CAN, p. 170 — TELG: Metáfora, exagero, palavra por outra, riqueza imagética. Homero. # VOCABULÁRIO. FRASE PRONTA. FRASE FEITA. LOCUÇÃO. “Liquefazer-se em lágrimas” Chorar, prantear, derramar lágrimas.
A.03 💧 […] cheio dentro de dúvida e receio, que a penas nos meus olhos ponho freio. (Cam., Lus, 4.87, apud SAID ALI, F2-250)
A.04 💧 Aqui Tomásia não teve as lágrimas — (F3-403⊖) Camilo, O Sangue, 63% — TELG: Não conteve, não reteve. Assim como há um emprego enfático ao acrescentar um prefixo como “re” (por exemplo: refoge, remasca), há uma imediatez emocional na exclusão do prefixo, neste passo de Camilo. Estilística. Morfologia. # VOCABULÁRIO.”
A.05 💧 Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe com a cabeça entre as mãos. Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veio abraçar-nos entre lágrimas, bradando: — Meus filhos, vosso pai morreu! […] — (F4-748-F2) Machado de Assis, Relíquias de Casa Velha; F – Umas Férias, p.209.
A.06 💧 Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. — (F4-777-C2) Lima Barreto, C-Contos Selecionados: ‘O homem que sabia javanês’, p.19.
A.07 💧 Olhos rociados de lágrimas. (=borrifados, aspergidos com pequenas gotas; orvalhados, aljofarados) — Dic. Aulete, cit. lateralmente na análise de F4-792-A2.
A.08 💧 E escondendo a face nas mãos, desatou a chorar num pranto convulso e desfeito, em que a vida parecia despedaçar-lhe o seio e jorrar para fora em borbotões de lágrimas e de soluços. — (F4-800-A13) Eça de Queirós, A- O Mistério da Estrada de Sintra. — TELG: {A figura intensiva pode beirar o ridículo}
A.09 💧 […] E na sombra ténue, quatro mulheres descalças, desgrenhadas, com rasgões de luto nas túnicas pobres, choravam como num funeral. Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta do manto negro: outra, exausta de lágrimas, jazia numa pedra, com a cabeça caída nos joelhos […] — (F4-800-E14) Eça de Queirós, E- A Relíquia, cap.III, p.145 — TELG: A citação é mais longa. Análise lá: { Observar como toda a descrição é ativa e intensa, com a escolha de algumas palavras: “exausta de lágrimas”, “cabelos … desmanchados, alastrados”, “cobrindo a face de terra”, “lançando ao céu os braços…”, “abalavam o morro” }
A.10 💧 […] Junto os rios da terra amaldiçoada / De Babilônia, um dia nos sentamos, / Com saudades de Sião amada. // As harpas nos salgueiros penduramos, / E ao relembrarmos os extintos dias / As lágrimas dos olhos desatamos. — (F5-878-C11) Machado de Assis, Poesias Completas, Americanas (1875). “A Cristã-nova. —TELG: V. Salmo 137 (136) e o poema de Camões, ‘Sôbolos Rios’. Quanto a “junto os rios”, está assim mesmo, não “aos rios”.
A.11 💧 Não derramarei mais lágrimas ao vê-lo despenhar-se no precipício. — (F5-941-B) Said Ali, Gramática Secundária, p.141. [autor?]
A.12 💧 Nem as lágrimas me são estranhas, nem o longo e aflito orar (Herculano) — (F6-1013) Said Ali, Gramática Secundária, 218-219
A.13 💧 A triste mãe volve para lá os olhos embaciados da idade e das lágrimas, e sente que não se acha inteiramente abandonada. — (F6-1023) Said Ali, Gramática Secundária, 228-229 [HERCULANO]
A.14 💧 Para o Céu cristalino alevantando / Com lágrimas os olhos piedosos, / ( Os olhos, porque as mãos lhe estava atando […]) — (F6-1029) Camões, Lusíadas, III.125
A.15 💧 […] e eternamente ordenha lágrimas, que a fervura descerra, de Rinier da Corneto, de Rinier Pazzo — (F6-1033-F⊖) Dante, Inferno — TELG: ESTILÍSTICA. Escolha de verbo com substantivo distante do campo semântico. Variedade. BOM!
A.16 💧 Chorei, embalei-me nas consolações, e os minutos foram pingando, vagarosos. A boca enxuta […] — (F6-1042-F) Graciliano Ramos, Infância, ebook Kindle pos. 295 — TELG: Análise lá: {{ METÁFORA E SÍMBOLO. PALAVRAS. SÊDE. A metáfora dos minutos pingando ressoa na sede e nas lágrimas. }}
A.17 💧 Tais contra Inês os brutos matadores […] As espadas banhando¹, e as brancas flores, Que ela dos olhos seus regadas tinha […] — (F6-1076) Camões, Lusíadas, III.132 — TELG: {{Brancas flores = as faces, que Inês “regou” com os olhos}}
A.18 💧 Aquela lua recorda-lhe Ivone de lábios suplicando que ele não parta, de olhos cheios de lágrimas na noite da despedida. — (F6-1085-B) Jorge Amado, Terras do sem-fim, p.21
A.19 💧 Rosalie levou-me ao transatlântico e assoou muito o nariz. — (F7-1098⊖) G. Simenon, Ainda restam aveleiras, p.69 — TELG: # VOCABULÁRIO. FRASE PRONTA. FRASE FEITA. LOCUÇÃO. “assoar nariz” = chorar; lágrimas.
A.20 💧 Contou, as lágrimas nos olhos, o seu imenso infortúnio — (F7-1113-7E-2) MR Lapa, Estilística, p.88
A.21 💧 Andavam os moços de três e quatro anos pedindo pão pela cidade por amor de Deus, como lhes ensinavam suas mães; e muitos não tinham outra cousa que lhes dar senão lágrimas que com eles choravam, que era triste cousa de ver. — (F7-1113-9H.6) MR Lapa, Estilística, p.126-127.
A.22 💧 Passou a um metro de distância e pude observá-lo. Eu nunca havia notado coisa assim, nem imaginava que alguém chorasse daquela maneira. Para bem dizer não havia lágrimas: era um borbotão a rolar no rosto, a cair na roupa, como se torneiras íntimas se houvessem relaxado, quisessem derramar todo o líquido do corpo. À luz forte do sol, o jato brilhava. Nenhum pudor, nem o gesto maquinal de pôr as mãos na cara, tentar esconder a imensa fraqueza. Um soluço, único soluço, uivo rouco; não subia nem descia; enquanto durou a passagem ressoou monótono, invariável: parecia que o homem não tomava fôlego. —Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere Pt.I, ebook kindle pos. 996 — TELG: Descrição mais longa e cheia de nuances, observação muito aguda do chorar.
A.23 💧 “Plangente” (Adj.) || que chora; que pranteia; lastimoso, triste, lamentoso: “Por isso, quando o sol da vida já declina, mostrando-nos ao longe as sombras do poente, é-nos doce parar na encosta da colina e volver para trás o nosso olhar plangente.” (G. Junqueiro) — Aulete online, verbete original.
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💠 COMPILADO LÁGRIMAS. SEÇÃO “B” – Adjetivos, intensificadores e outras versões do choro e das lágrimas
B.01 💧 Estêvão chegou a casa e atirou-se à cama. Ninguém o soube nunca, só as paredes do quarto foram testemunhas; mas a verdade é que Estêvão chorou lágrimas amargas. — (F4-705-3H⊖) Machado de Assis, Contos Fluminenses, III – A Mulher de Preto, p. 91 — TELG: {“FRASE FEITA: chavão, clichê, lugar-comum. “chorar lágrimas amargas”. / Pleonasmo justificável (chorar lágrimas) + emprego transitivo de verbo intransitivo. Esta expressão deve ser usada com moderação; se por um lado está gasta, por outro é o caminho seguro para colocar um adjetivo nas lágrimas derramadas. }
B.02 💧 […] veio realmente chorar tantas e tais lágrimas, como nunca as vi chorar jamais, nem antes nem depois. — (F4-747-D3) Machado de Assis, Páginas Recolhidas; D – Eterno!, p.55 — TELG: { Estrutura: duplicidade, pareamento. Recursos de ênfase. Estilística. Redundância, pleonasmo, para efeito de reforçar a idéia. Exagero, hipérbole: ”hipérbole formal” (ocorreria pelo exagero na quantidade de palavras e não por recurso semântico). / Só para comparar, a frase poderia ter uma versão mais curta: “chorou tantas lágrimas como eu nunca vi” }
B.03 💧 Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto. // “Nem todas as crianças vingam”, bateu-lhe o coração. — (F4-748-A12) Machado de Assis, Relíquias de Casa Velha; A – Pai contra Mãe, p.130
B.04 💧 Eles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha trazia alguma cousa parecida com lágrimas: era, nos olhos, uma ternura úmida. — (F4-748-H2) Machado de Assis, Relíquias de Casa Velha; H – Pílades e Orestes, p.230 — TELG: {{ Análise detalhada na entrada original }}
B.05 💧 Notou nas duas histórias que Helena não ia de muito má vontade, porque se ria à socapa; mas Dido, essa parecia que vertia dos olhos lágrimas como punhos. — (F4-760-P⊖) Miguel de Cervantes, ‘Dom Quixote’, Trad. Viscondes Castilho e Azevedo, PARTE II, capítulo 71 — TELG: {“COMPARAÇÃO. CHORO COPIOSO. LÁGRIMAS. “Lágrimas como punhos” –> certamente já li isso em outro autor… a imagem é boa, mas se eu fosse usá-la precisaria dar uma guaribada, por meio de ressalva estilística ou algum outro procedimento. }
B.06 💧 Calou-se — e as suas mãos magras, tatuadas de linhas mágicas, tremiam, limpando as longas lágrimas que o alagavam. — (F4-800-E13) Eça de Queirós, E- A Relíquia, cap.III, p.130 — TELG: { Sonoridade. Aliteração. BOA! Notar que a aliteração concenta-se nos sons L e M, havendo também certa presença do “G”. Aqui somos remetidos a LARME (francês) e secundariamente a LÁGRIMA (português). }
B.07 💧 […] e ele, naturalmente, lá cedeu perante essas mãos suplicantes, essas lágrimas que caíam quatro a quatro pela pobre face de cera. — (F4-800-F5) Eça de Queirós, F- Os Maias, cap.I, p.29 — TELG: { ESTILÍSTICA DOS NUMERAIS: emprego estilístico do numeral. par, simetria, abundância. Como escorrem as lágrimas? Pode cair a lágrima solitária. Podem fugir duas pelo canto dos olhos. Duas a duas, seriam dois tempos de duas lágrimas pelos lados.De quatro em quatro, estão abundantes, duplicando as que caem duas a duas. Quatro a quatro quer dizer que caem quatro, depois mais quatro… talvez caiam duas pelo canto externo dos olhos, outras duas perto do nariz… / MISTURA SIMETRIA E ABUNDÂNCIA” }
B.08 💧 — Bom exame, hem?… Eu… // Mas não pôde prosseguir: as lágrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba branca. — (F4-800-F9) Eça de Queirós, F- Os Maias, cap.III, p.97 — TELG: {ESTILÍSTICA DOS NUMERAIS: Classes de palavras: numeral. Lágrimas correndo duas a duas: simetria: choro caracterizado, mas não abundante. Confrontar com F4-800-F5.}
B.09 💧 — Potira é como aquela flor que chora / Lágrimas de alvo leite, se do galho / Mão cruel a cortou. […] — (F5-878-C4⊖) Machado de Assis, Poesias Completas, Americanas (1875). “Potira” — TELG: {SÍMILE. COMPARAÇÃO. Símile visual; o diferencial está no tema botânico, arbóreo (o leite que verte da planta cortada) #ÁRVORE, #NATUREZA.}
B.10 💧 Seguiu-se a narrativa do acontecido e as alegrias do ancião interpoladas de agradecidas lágrimas. — (F5-886-L) Camilo Castelo Branco, ‘A Queda dum Anjo’ (AQdA), Posição: 1185.
B.11 💧 Derramava lágrimas amargas entretanto que olhava para o filho morto. — (F5-941-D) Said Ali, Gramática Secundária, p.141.
B.12 💧 As lágrimas brotam das palavras. — (F6-967-E⊖) Evelyn Waugh, Retorno a Brideshead, p. 325. — TELG: { O contexto é o de uma conversa sobre assunto doloroso; se bem me lembro, o autor registra com proficiência o ciclo da dor e das lágrimas, até a calmaria, neste diálogo ou série de diálogos }
B.13 💧 Cousa é para sentir e digna de muitas lágrimas — (F6-984,_C1) H. Pinto apud Said Ali, Gramática Secundária, 174-175+180.
B.14 💧 […] E nisto, de mimosa, o rosto banha em lágrimas ardentes — (F6-998,_D) Camões, Lusíadas, apud Said Ali, Gramática Secundária, 193-194.
B.15 💧 Há metáforas faltas de originalidade e muito antigas, mas nem por isso menos estimadas […]. Exemplos: […] lágrimas ardentes […] — (F6-1016-B,_B1) Said Ali, Gramática Secundária, 221-222
B.16 💧 porque as suas lágrimas eram de condoer as feras, e as feras deviam apiedar-se da sua viuvez. — (F6-1061-J⊖) Camilo Castelo Branco, ‘Onde está a felicidade?’, ed. kindle pos. 268 — TELG: {VOCABULÁRIO E HIPÉRBOLE. Sofrimento, compaixão, dor, pena, dó. — NOTA: Sobre as feras condoídas, lembrar-se da fala de Inês de Castro: “Se já nas brutas feras viu a gente […] terem tão piadoso sentimento”; e ainda: “entre leões e tigres, e verei / se neles achar posso a piedade / que entre peitos humanos não achei” — Lusíadas, Canto III}
B.17 💧 As lágrimas era um rio — (F7-1113-12L) Garrett, apud M.R. Lapa, Estilística, p.169 — TELG: {Hipérbole, comparação (metáfora)}
B.18 💧 Quando as lágrimas da dor são mansas, serenas, discretas, medidas, então sempre são belas […] . São lágrimas limpas, purificadoras da alma que escuta o eco da palavra de Cristo: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados (Mt. 5, 5) — (F7-1130-B) A. Orozco, Olhar para Maria, p.85 — TELG: { Orozco vale-se com frequência do adj. “limpo” e adv. “limpamente”. Aqui a lógica é oposta à do sentimentalismo que atribui valor intrínseco ao sofrimento exagerado, exibido, impulsivo (v. Dalrymple). O crivo é a beleza, a pureza, a mansidão etc.}
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V. Nota final
Do mesmo modo que as três mil frases originaram uma seleta de quarenta (depois divididas em dois blocos com fronteira não lá muito estanque), diversos subgrupos e reorganizações seriam possíveis.
Há na nossa coleção as lágrimas realistas, as exageradas, as metafóricas. Há as tristes e as não-tristes. Há-as visuais, auditivas, sinestésicas. Há explícitas e há sugeridas. Há aquelas de descrição breve e aquelas de longas palavras. Lágrimas originais e lágrimas clichê…
O rearranjo dos exemplares é como um jogo de dominó, em que as peças vão sendo justapostas por conterem ao menos uma parte similar. Também gosto de pensar nessa “coleção de figurinhas” como um baralho infinito desses jogos conhecidos como Trading Card Games (TCG) ou Collectible Card Games (CCG), como Yu-Gi-Oh, Pokémon, Magic the Gathering.
O adjetivo “colecionável” me agrada de forma especial, aqui; e embora eu conheça pouco de cada um desses jogos, aplico-os ao caso concreto da seguinte maneira:
Cada frase é como uma carta que pertence à nossa coleção. Essa carta tem seus atributos ou seus “poderes”, e tem como que um valor próprio, ou um conjunto de valores. Uma frase sublinhada no livro é uma carta. A mesma frase, agora agregada a uma anotação, é uma versão especial e mais valiosa daquela carta. Uma frase com uma boa anotação vale mais ainda. Uma carta bem anotada e com referenciamento cruzado a outras cartas e notas, é praticamente um texto pronto: uma postagem, um conto, uma palestra, às vezes até um livro em germe.
Assim como nos ditos CCGs (ou TCGs), as cartas podem ser colecionadas por seu valor próprio, mas também para o jogo. E o jogo no nosso caso é a escrita, o discurso, a conversa, a aula etc. Colecionamos as cartas, organizamo-las em caixas, selecionamos as melhores e mais queridas. Revisitamo-las de quando em quando, aprimoramo-las com uma anotação suplementar, uma nova conexão… Descartamos (cancelamos) algumas de tempos em tempos, agregando-as a outras ou transferindo-as para outra parte. Abrimos espaço para as novidades, e procuramos novidades lembrando sempre daquilo que já temos.
Alguns leitores mais atentos terão percebido, por exemplo, que o título do capítulo “III” deste artigo é “Co’o rosto banhado em ágoa”, uma linha do grande poema Sôbolos Rios, de Luís de Camões. E terão notado que esse mesmo trecho, embora fale de prantos, não compõe as séries “A” e “B” apresentadas no nosso “deck” lacrimal.
Explico: é que para algumas figurinhas que colecionei no início deste ano, a partir da leitura parcial das Cantigas de Santa Maria e da edição crítica de Souza da Silveira para alguns Textos Quinhentistas, decidi criar uma terceira série de exemplos (letra “C”), que ainda não está digitada. O poema camoniano citado é justamente o primeiro do volume, repleto de comentários sintáticos, filológicos etc., e integrará oportunamente a série “C”.
E não seria de estranhar a vinda de uma letra “D” para os dicionários — analógicos, de frases feitas, de sinônimos — com alguma coisa respigada em Rocha Pombo, Antenor Nascentes, João Ribeiro, Francisco Ferreira Azevedo, Carlos Spitzer…
É do primeiro desses dicionaristas esta saborosa série de sinônimos:
495 – CHORAR, prantear, carpir, lamentar, gemer, lagrimar, soluçar. – “Ao derramar, ou verter lágrimas chama-se chorar” – diz Roq. – do castelhano llorar, do latim fleo. É termo genérico, pois não só indica as lágrimas que provêm de dor e aflição, como as que por alguma circunstância se destilam das glândulas lacrimais. O fumo, os ácidos, etc. fazem chorar os olhos. Chora-se de alegria não menos que de tristeza. Choram também as videiras e os ramos quando se cortam. – Quando às lágrimas se juntam vozes queixosas, com lamentos – e talvez soluços, pranteia-se. O pranto é mais forte e intenso que o choro, porque neste derramam-se lágrimas com lamentos e soluços. – Lamentar é queixar-se com pranto e mostras de dor; e também exprime canto lúgubre em que se chora alguma grande calamidade. Jeremias lamentou poeticamente as desgraças da ingrata Jerusalém, e a esta espécie de poema elegíaco se deu com razão o nome de lamentações. – Costumavam os antigos arrancar, ou pelo menos desgrenhar os cabelos, e desfigurar as faces, na ocasião de luto, e para exprimir esta ação de profunda dor, usavam do verbo carpir, e carpir-se, o qual, por extensão, veio a significar quase o mesmo que lamentar. Do uso de carpir-se sobre os defuntos se faz menção na Crônica de d. João I. Havia antigamente mulheres a quem se pagava para carpir-se sobre defuntos, e acompanhar os enterros, fazendo mostras de dor e aflição, e a que se chamava carpideiras. Refere-se, pois, este vocábulo especialmente às ações que demonstram dor e mágoa. De todas estas palavras, a mais poética, e que em lugar das outras muitas vezes se emprega, é o verbo chorar, de que o nosso poeta fez mui frequente uso, como estão dizendo os seguintes lugares:
■ Os altos promontorios o choraram; / E dos rios as aguas saudosas, / Os semeados campos alagaram / Com lagrimas correndo piedosas. (Camões, Lus. III, 84).
■ As filhas do Mondego a morte escura / Longo tempo chorando memoraram; / E por memoria eterna, em fonte pura / As lagrimas choradas transformaram. (Ibid. III, 135)
■ Choraram-te, Thomé, o Gange e o Indo; / Chorou-te toda a terra que pisaste; / Mais te choram as almas que vestindo / Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. (Ib. X, 118)
– Gemer é “dar sinal de grande dor, exprimir aflição, por meio de voz inarticulada e lamentosa”. Os grandes prantos são sempre acompanhados de gemidos. – Lagrimar é “verter lágrimas”. Julgam muitos que não passe este verbo de simples variante de lagrimejar (ou lacrimejar); mas, na acepção em que é preciso tomá-lo neste grupo, é de uma força e intensidade que o tornam indispensável na língua, para significar “verter lágrimas como por efeito de imensa dor, gemendo e pranteando”. É com este sentido que empregou Dante o seu lagrimare num daqueles versos que pôs na boca de Ugolino:
■ Ma se le mie parole esser, den seme, / Che frutti infamia al traditor, ch’io rodo, / Parlare e lagrimar’ vedrai insieme. (Inf. XXXIII, 3)
Ora, traduzir este lagrimare pelo nosso chorar não seria menos do que diminuir deploravelmente aquela grande figura. – Soluçar é “prantear e gemer com aflição, como se a alma abalada clamasse em desespero para fora”. Por isso dizemos figuradamente que – o mar soluça e não – pranteia, nem – chora; pois há como que aflição monstruosa no embate das ondas contra a praia.
(José Francisco da Rocha Pombo. Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa)
E assim seguimos em frente.
Nossa coleção de figurinhas cresce com as leituras, e com elas se aperfeiçoa — e com a vida.
Eis a nossa única fonte (amiúde involuntária) de autenticidade.

