Já mencionamos de passagem que a análise do estilo pode (ou deve) contemplar “desde o nível da letra, passando pelo vocabulário e pela sintaxe, até chegar à totalidade da narrativa, ou do ensaio, ou do poema“. Noutra ocasião havíamos concitado todos os aspirantes a escritor a serem precisos no que escrevem.
Hoje trazemos um exemplo muito instrutivo de análise estilística que leva em conta um nível quase “microscópico” do manejo da linguagem — a combinação entre os sons de duas letras.
No bojo de estudo sobre a fusão ou não de vogais numa sílaba só em Bernardim Ribeiro (Églogas) e Cristóvão Falcão (Crisfal), Celso Cunha nos brinda com esta reflexão instigante, que assim resumo: Até a simples escolha de fundir ou não uma vogal com outra, gerando ou uma ou duas sílabas poéticas (ou seja, ou uma elisão, ou um hiato), pode estar orientada por uma intencionalidade do autor.
No excerto de Bernardim transcrito no final do trecho abaixo, a intenção autoral é o realce, a ênfase. O contexto sintático, com emprego de objeto direto pleonástico, ajuda a esclarecer tal intenção.
Em outro capítulo do mesmo livro, que não transcrevemos desta vez, Cunha analisará falas do Diabo e do Anjo no primeiro Auto das Barcas de Gil Vicente, para apontar como o comportamento com as vogais imprime um ritmo discursivo distinto para cada uma das personagens, contribuindo para caracterização de ambas (como um par opositivo). Leitura recomendadíssima.
Mais ainda, fica recomendado aos fazedores de versos que atentem nesse tipo de detalhe, perguntando-se também que torneios a língua atual oferece para a composição de versos que não apenas caibam no metro desejado, mas o façam exprimindo com maior precisão o conteúdo e o sentimento que se deseja transmitir ao leitor.
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TRECHO DE CELSO CUNHA (LÍNGUA E VERSO)
[Na Égloga II de Bernardim Ribeiro, o pronome enclítico funde-se à última vogal do verbo antecedente, formando uma só sílaba poética. Todas as citações são de heptassílabos — redondilhas maiores]
- – “e levando-o a pascer” (v.32);
- – “Jano, em vendo-a, foi pasmado” (v.41);
- – “tomando-a creceu-lhe a mágua” (v.134);
- – “e tornando-o melhor ver” (v. 268);
- – “e trouxe-a entam entre os dentes” (v.418);
- – “vendo-a Franco alvoroçou-se” (v.419).
Essa fusão numa só sílaba da vogal final de formas verbais ao pronome pessoal o (a) começara em fins do século XV, mas é na versificação de Bernardim Ribeiro que adquire caráter de regra. Regra ainda passível de exceções, principalmente quando o pronome servia de objeto direto pleonástico e estava, portanto, em expressivo realce. Assim no v. 298 da Égloga III:
- – “a penha tenho/-a eu”.
– Celso Cunha (1963). Língua e Verso, p. 34. – negritos e colchetes nossos.
OBS.: A ilustração desta postagem é detalhe da capa da edição citada.
