P’ – III. O “demo sen vergonna” de Afonso X

A postagem da semana fica para transcrever uma análise realizada por Ângela Vaz Leão no artigoQuestões de Linguagem nas Cantigas de Santa Maria(Revista SCRIPTA, Belo Horizonte – v.4, n. 7, p.11-24, 2ºsem. 2000. Ver trechos nas pp. 13-14 do PDF). Os negritos e trechos entre chaves são acréscimos deste site.

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Santa Maria devemos
amar muit’ e rogar
que a ssa graça ponna
sobre nos, por que errar
non nos faça, nen peccar
o demo sen vergonna.”
(Afonso X, Cantigas de Santa Maria, Cantiga nº 7, Refrão).

{{… a autora analisa a sintaxe do trecho de forma detalhada, para prosseguir:}}

Eis agora toda a frase reconstituída: “Devemos amair muit’ [a] Santa Maria e rogar [-lhe] que ponna a ssa graça sobre nós, porque o demo sen vergonna non nos faça errar nen peccar“. {{— Ou, em tradução deste site: “Devemos amar muito a Santa Maria e rogar-lhe que ponha a sua graça sobre nós, para que o demo sem vergonha não nos faça errar nem pecar'”}}

O sentido está recuperado, a forma é inteligível para um leitor moderno. Tudo certinho! Salvou-se a ordem, confirmou-se a análise, recuperou-se o sentido. Mas, em compensação, perdeu-se o ritmo, perdeu-se a rima, perdeu-se a beleza dos versos. E o que é pior, perdeu-se a intenção do autor, viabilizada pelos dois desloca mentos extremos e magistrais: “Santa Maria” para o início e o “demo sen vergonna” para o fim do refrão.

Com efeito, ao deslocar “Santa Maria” para a esquerda, o Autor lhe deu o primeiro lugar na frase, enquanto que, com o deslocamento de o demo sen vergonha” para a direita, o Autor lhe deu o último lugar na frase, construindo, se assim se pode dizer, uma oposição topológica, máxima, radical, entre a Virgem e o demônio. Criou- se, por esse recurso, uma espécie de significante posicional, mostrando a primazia da Virgem, que vence o demônio e o lança para o mais ínfimo dos lugares. Aliás, os três actantes presentes no “drama” da frase são hierarquizados, e essa hierarquia se traduz pela posição relativa dos três elementos: primeiro, a Virgem; depois nós, os humanos (representados pela desinência verbal e pelos pronomes pessoais); e finalmente, o demo. A posição de nós, humanos, entre a Virgem e o demo, é bem significativa da tensão que sofremos entre o Bem e o Mal, entre a salvação e a tentação. {{…}}

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Leia também:

Os cristais de Cervantes – As lições de estilo que extraí de uma passagem do Dom Quixote.

Então é errado escrever “e também”? – O texto começa um pouco teórico demais, é verdade. Mas na parte prática há várias análises de trechos de bons escritores, em que o elemento posicional não é deixado de lado.

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