P’ – IV. As pancadas de Luís Delfino e Fernando Pessoa

Dias atrás conversamos sobre a ordem das palavras na frase, analisando um exemplo que espero tenha fixado de vez, para a maioria dos leitores, a utilidade do conceito de hipérbato (inversão). Vimos então como a reorganização dos elementos da frase serviu para um incremento de sentido, porquanto o autor estabelecia uma topologia de afastamento e oposição radical entre Santa Maria e o “demo sem vergonha”, bem como de primazia daquela sobre este.

O texto de hoje trata de inversões menores e mais estruturadas, a que chamamos cruzamento ou quiasmo

“Quiasmo…” Desta vez a palavra grega nos desce mais macia, talvez porque seu sentido seja mais intuitivo, ou porque soe melhor; talvez apenas porque fomos levados a aprender em aulas de biologia sobre o “quiasma óptico”, certo cruzamento entre feixes de nervos que resulta numa forma de “X”.

Pois bem. Para falar um pouco da forma literária dos cruzamentos, quero começar transcrevendo para vocês esse que considero um dos mais belos poemas de temática cristã do nosso idioma — Jesus ao colo de Madalena, de Luiz Delfino (o grifo é meu):

Jesus expira, o humilde e grande obreiro!
Sobem já pela cruz acima escadas;
E nos cravos varados do madeiro
Os malhos batem, cruzam-se as pancadas.

Ouve-se o choro em torno. As mãos primeiro
Inertes caem no ar dependuradas;
A fronte oscila; arqueia tronco inteiro
Nos braços das mulheres desgrenhadas.

Soltam-se os pés. Aumenta o pranto e queixa;
Só Madalena ao oiro da madeixa
Limpa-lhe a face , que de manso inclina.

E no meio da lágrima mais linda,
Com o dedo erguendo a pálpebra divina,
Busca ver se Ele a vê… beijando-o ainda!…

A versão acima foi copiada dum arquivo de texto em que coleciono bons poemas que conheci, e alguns trechos de boa prosa. O curioso é que, anos atrás, quando fui procurar na internet o soneto de Delfino, para acrescentá-lo a essa minha antologia pessoal, deparei com a seguinte versão da primeira estrofe:

Jesus expira, o humilde e grande obreiro!…
Sobem já, pela cruz acima, escadas;
E nos cravos varados do madeiro
Batem os malhos, cruzam-se as pancadas.
(grifo meu)

Ora, eu trazia na memória alguns dos versos do soneto na forma transcrita por Bilac, e estranhei de imediato a divergência entre “batem os malhos” e “os malhos batem”

Não era a única diferença, é verdade. Mas em todos os outros confrontos acabei aceitando de bom grado o soneto “definitivo” — se assim tomarmos a versão que aparece com mais frequência na internet, e também em coletâneas do poeta catarinense, como aquela organizada por Lauro Junkes. Apenas na questão específica dos “malhos” tive, e continuo tendo, uma preferência pessoal pela versão ‘bilaquiana’ do verso de Delfino.

Minha justificativa é dupla. 

 ⬊ Primeiro, a ordem direta “os malhos batem…” tem sobre a outra uma vantagem rítmica, fazendo que todas as sílabas fortes do verso (sílabas 2, 4, 6, 8 e 10) estabeleçam alternância com as fracas (as ímpares de 1 a 9). É um compasso perfeitamente condizente com o som ritmado das batidas, efeito que não se alcança com “batem os malhos…”:ri

“Os malhos batem, cruzam-se as pancadas”
Batem os malhos, cruzam-se as pancadas”
(grifos meus)

 ⬊ Em segundo lugar, a versão do verso que ouso chamar ‘bilaquiana’ traz um enriquecimento no plano posicional, na medida em que, entre “os malhos batem” e “cruzam-se as pancadas”, ocorre uma alternância entre a ordem direta (sujeito-verbo) e a ordem inversa (verbo-sujeito). Observemos o comportamento dos substantivos (“malhos” e “pancadas”) e dos verbos (“batem” e “cruzam-se”): 

Os malhos batem
… … … ……  ⤩
cruzam-se as pancadas.
(grifos meus)

Através de uma lente puramente estrutural, o que vemos aí é um quiasmo ou cruzamento entre as funções sintáticas, em que sujeito vai para o lugar de predicado, e predicado vai para o lugar de sujeito. 

E se o cruzamento já tem potencial, por si só, de trazer variedade formal ao estilo e enriquecer a construção frasal, mais ainda o terá quando o conteúdo da mensagem também envolve a idéia de cruzamento, seja pelo verbo “cruzam-se” (alternam-se as pancadas nos cravos…), seja pela imagem da cena como um todo (o Senhor Morto sendo descido da Cruz).

Essas são as minhas duas justificativas para continuar recitando o soneto de Luiz Delfino na versão “definitiva”, exceto pelo quarto verso, em que sigo a citação dada por Bilac. 

É evidente que o filólogo, o acadêmico, o preparador de edições críticas, terá de recorrer a outros critérios para decidir entre “os malhos batem” e “batem os malhos”. Precisará cruzar datas, garimpar bibliotecas, confrontar manuscritos e expurgar imprecisões, para enfim “restituir, em toda a sua perfeição, a mente do autor”. Nossa conversa hoje guiou-se apenas por critérios estilísticos e não tem nenhuma pretensão dessa magnitude. 

E uma última palavra sobre pancadas. 

A estrofe final de “Ó sino da minha aldeia” (Fernando Pessoa) descreve as batidas não de malhos, mas do sino — esse instrumento que “dobra” e produz todo o seu som de um movimento cruzado, em que a direção da campânula inverte-se, torna-se oposta à do badalo, até o altissonante choque, seguido de nova inversão.

De certo modo, o cruzamento (quiasmo) estrutural dos últimos dois versos, além de trazer variedade, faz lembrar o movimento de vaivém do sino.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

(grifos meus)

É isso, caros amigos. 

O que vimos aqui são detalhes, sutilezas. Escolhas entre duas formas que cabem igualmente no metro escolhido — o decassílabo em Delfino, a redondilha maior em Pessoa —, e que talvez pareçam equivalentes. 

Não são.

*

Leia também no site:

Então é errado escrever “e também”? – Alguns exemplos interessantes de estrutura cruzada são analisados ao longo desse estudo.

Alterne – De certa forma, o quiasmo também pode ser um recurso para a organização dos estudos.

Ensino do Vernáculo [artigo de Napoleão Mendes de Almeida] – Texto fundamental para refletirmos sobre a Língua Portuguesa ensinada nas escolas, ao qual acrescentei mais de trinta notas analíticas, entre remissões à Gramática Metódica da Língua Portuguesa e comentários sobre o estilo do autor.

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