[Curtos] O povo é um clássico também

Trechos do livro “A linguagem de Camilo”, de Cláudio Basto

“Os termos — jorrantes, sem qualquer esforço, de tão fértil e célere caneta, acorridos de origens múltiplas — são claramente combinados, claramente doseados, de modo que da prosa do Escritor, embora uma ou outra palavra não seja conhecida, ressalta sempre a transparência do sentido.” (p.14)

“Depois, não é só a opulência numérica de termos e o seu bom uso individual que devem atrair a nossa admiração, mas ainda a maneira por que esses termos gramaticalmente se ligam. A sintaxe camiliana, haurida nas obras dos clássicos e no linguajar do povo (o povo do norte, que o Romancista ouvia, é um clássico também) conserva e lustra a «índole» da língua portuguesa. A esta luz, a linguagem de Camilo é notabilíssima, muito mais notável do que pelo «número» dos vocábulos.” (p.15)

Certo, não foi o povo que aprendeu a falar com os clássicos, lendo-os; foram os clássicos que aprenderam a escrever com o povo, ouvindo-o — e como ele falando. […] Em parte, confundem-se, pois, a influência dos clássicos e a do povo, na linguagem camiliana. Muitos vocábulos, muitas construções sintáticas, muitas frases estereotipadas, a que geralmente se apõe a nota de antigo e clássico, são populares ainda.” (pp. 42-44)

[Camilo nunca baniu nem obscureceu, em sua prosa, a linguagem corrente.] “E assim procedeu não só por disposição natural, avesso a nefelibatismos, a arrevesamentos de estilo, a ânsias de originalidade por meio do esquisito formal, — mas ainda por cálculo, deixem-me assim dizer.” (p.23)

“Camilo escrevia para ser lido pelo maior número possível de indivíduos; tinha ele diante de si o público, de cujo «favor» precisava — a sua pena era o seu ganha-pão. Necessitava por isso de ser facilmente compreendido, — de escrever romances para todos.” (p.23-24)

Camilo Castelo Branco

(“A linguagem de Camilo” está disponível para leitores do meu site, na página de downloads)

PÓS-ESCRITO: Grande foi minha surpresa quando encontrei em GARRETT a expressão que dá o título desta postagem. Se Cláudio Basto copiou o compilador do Romanceiro sem lhe dar créditos, pelo menos aqui podemos corrigir a injustiça. Eis o trecho de Almeida Garrett:

Leia também:

Camilo Castelo Branco – Artigo de Antonio Houaiss.

Que instrumentos Tolkien usou para escrever sua história do anel?Spoiler: precisou dominar diferentes camadas do idioma inglês.

Escritores que se prezam… — Este trecho de Said Ali sobre a arte da escrita conecta com muitos outros do site.

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