P – 13. “Bastante” ou “Bastantes”?

“Coma bastante frutas”? “Melhor será comer bastantes frutas. Bastante só não varia quando é advérbio” — diz o Sacconi no seu livrinho 1000 erros de português da atualidade.

Mas o fato é que a tentação de escrever “coma bastante frutas” é frequente e nos convida a um olhar mais detido sobre os sentidos e funções da palavra “bastante”, aí incluídos os contextos em que ela permanece, sim, invariável. É o que tentaremos trazer neste artigo.

POSIÇÃO DO PROBLEMA

“Bastante” vem do verbo “bastar”. A terminação “-ante”, como em debutante (= que debuta), estreante (=que estréia) e estudante (= que estuda) aponta para o particípio presente latino, do qual ainda herdamos palavras terminadas em “-ente” (presidente) e “-inte” (constituinte).

Não é do latim clássico o emprego de um verbo “*basto, *bastare“, senão provavelmente do vulgar. Trata-se, aliás, de forma não documentada, hipotética, para explicar a entrada do verbo em português (bastar) e em outras línguas românicas (italiano: bastare; espanhol: bastar). Incorporado o verbo, vêm com ele as formas flexionais, inclusive o particípio presente.

É natural, portanto, que se veja em “bastante” um adjetivo de origem participial, equivalente a “que basta”. Como tal, deve concordar com o nome a que se refere em número (procurador bastante, procuradores bastantes). Não concorda em gênero, porque já no latim não havia diferença entre as formas masculina e feminina dos particípios presentes — cujo nominativo singular termina sempre em “-ns”, cujo genitivo singular sempre em “-ntis”, independente do gênero.

Tiram-nos da zona de conforto, no entanto, duas perturbações que parecem dizer respeito tanto ao significado (“que basta”) quanto à classe da palavra (adjetivo).

A primeira é que o adjetivo “bastante” passa a ser utilizado também como sinônimo de “grande quantidade”. Assim escreveu Eça, em uma de suas cartas: “Ontem vi bastantes casas…” (= grande quantidade de casas). Nesta função, não é errado dizer que assume ares de pronome indefinido, tomando por modelo a palavra “muito”. A segunda perturbação também comporta tal sentido mais amplo de “quantidade”, mas opera uma mudança mais radical na classe da palavra, na medida em que “bastante” passa a ser utilizado como advérbio intensivo, podendo agora modificar verbos, adjetivos ou até outros advérbios. Vejamos Graciliano Ramos, em Infância: “Serapião me ensinava complicações da história do Brasil, errando bastante” (= errando muito).

Não é a intenção deste texto rastrear o processo histórico dessa dupla ampliação no emprego e sentido de “bastante”. Desejamos apenas colacionar as orientações de alguns gramáticos e professoes a respeito do melhor emprego da palavra, nos seus diferentes contextos. Em geral, o que se vê é que a segunda ampliação não encontra objeções entre os mestres e manuais, ao passo que a primeira pode ser reprovada por alguns. Vejamos.

NAPOLEÃO MENDES DE ALMEIDA

(Gramática Metódica da Língua Portuguesa, §358; g.n.)

DOMINGOS PASCHOAL CEGALLA

(Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, “bastante”; g.n.)

MANUAL DE REDAÇÃO E ESTILO D’O ESTADO DE SÃO PAULO
(Trecho de interesse, sobre “bastante” como pronome/adjetivo indefinido)

MANUEL SAID ALI
(Trecho de interesse, tratando “bastante” como advérbio)

(Gramática Secundária, p. 200)

EVANILDO BECHARA

(Novo Dicionário de Dúvidas da Língua Portuguesa [colab. Shahira Mahmud], “bastante”)

CONCLUSÃO

Parece-nos que aceitar o emprego adjetivo de “bastante” como indefinido, a significar “numeroso”, “em grande quantidade”, é caminho sem volta. Em tal situação, imprescindível é que concorde com o substantivo a que está ligado: “Coma bastantes frutas”.

Tenho para mim que o maior problema em alastrar construções como “ontem vi bastantes casas” está numa ambiguidade hoje já nem percebida, que acarretará, com o tempo, o apagamento de um dos sentidos. Entre significar “ontem vi casas suficientes” e “ontem vi muitas casas”, nossa mentalidade preguiçosa passa paulatinamente a associar o adjetivo “bastantes” tão somente ao segundo sentido, com o sacrifício desnecessário de uma idéia mais sofisticada e expressiva. Hoje já rareia o emprego próprio, originário de “bastante”.

“Bastar” não encontra correspondente à altura em um monstrengo comprido e sibilante como “suficienciar”. É mais breve, mais sonoro, mais expressivo. Evoca uma história própria, talvez ligada à palavra grega para bengala ou bastão — O que é o que é: quadrúpede na aurora, bípede sob o sol, trípede na noite fria?

Pensemos em “basto”. A cabeleira basta é cheia, mais que suficiente, mas não ainda absurda como guedelha ou grenha. A floresta basta tem uma compacidade e vida que não podem ser traduzidas por “grande” ou “vasto” — este sim um herdeiro do latim clássico, e com sentido original interessantemente oposto à idéia de grande volume: “vastus” aparenta-se ao nosso devastado e ao inglês wasted, para significar aquilo que é amplo apenas na medida em que é amplamente vazio e incultivado. (Lembre-se disso quando ler que tal ou tal celebridade universitária possui um “vasto currículo!)

É certo que “abastado” e “bastança” (ou “abastança“), remetem ao muito e ao excesso. Mas parecem ter também uma referência inolvidável à idéia de uma quantidade necessária e suficiente, de modo que ainda não se perdeu o eco do longínquo bastar. “Locupletar(-se)” parece estar um passo além na escala dos excessos, acrescentando um não-sei-quê-a-mais aos níveis anteriores de completude: completo → repleto → locupleto.

ENFIM. Ao ligar o adjetivo “bastante” a algum substantivo, devemos ficar atentos à concordância de número. E devemos pensar sempre se enriquecemos a língua com um sentido nítido e próprio, ou se a empobrecemos mergulhando a palavra mais específica no campo da mais genérica (“muito”).

LEIA MAIS:

Corte todas as palavras que você nunca cortou antes

Então é errado escrever “e também”?

O “demo sen vergonna” de Afonso X

O instinto etimológico (Manuel Rodrigues Lapa)

Deixe um comentário