“Coma bastante frutas”? “Melhor será comer bastantes frutas. Bastante só não varia quando é advérbio” — diz o Sacconi no seu livrinho 1000 erros de português da atualidade.
Mas o fato é que a tentação de escrever “coma bastante frutas” é frequente e nos convida a um olhar mais detido sobre os sentidos e funções da palavra “bastante”, aí incluídos os contextos em que ela permanece, sim, invariável. É o que tentaremos trazer neste artigo.
POSIÇÃO DO PROBLEMA
“Bastante” vem do verbo “bastar”. A terminação “-ante”, como em debutante (= que debuta), estreante (=que estréia) e estudante (= que estuda) aponta para o particípio presente latino, do qual ainda herdamos palavras terminadas em “-ente” (presidente) e “-inte” (constituinte).
Não é do latim clássico o emprego de um verbo “*basto, *bastare“, senão provavelmente do vulgar. Trata-se, aliás, de forma não documentada, hipotética, para explicar a entrada do verbo em português (bastar) e em outras línguas românicas (italiano: bastare; espanhol: bastar). Incorporado o verbo, vêm com ele as formas flexionais, inclusive o particípio presente.
É natural, portanto, que se veja em “bastante” um adjetivo de origem participial, equivalente a “que basta”. Como tal, deve concordar com o nome a que se refere em número (procurador bastante, procuradores bastantes). Não concorda em gênero, porque já no latim não havia diferença entre as formas masculina e feminina dos particípios presentes — cujo nominativo singular termina sempre em “-ns”, cujo genitivo singular sempre em “-ntis”, independente do gênero.
Tiram-nos da zona de conforto, no entanto, duas perturbações que parecem dizer respeito tanto ao significado (“que basta”) quanto à classe da palavra (adjetivo).
A primeira é que o adjetivo “bastante” passa a ser utilizado também como sinônimo de “grande quantidade”. Assim escreveu Eça, em uma de suas cartas: “Ontem vi bastantes casas…” (= grande quantidade de casas). Nesta função, não é errado dizer que assume ares de pronome indefinido, tomando por modelo a palavra “muito”. A segunda perturbação também comporta tal sentido mais amplo de “quantidade”, mas opera uma mudança mais radical na classe da palavra, na medida em que “bastante” passa a ser utilizado como advérbio intensivo, podendo agora modificar verbos, adjetivos ou até outros advérbios. Vejamos Graciliano Ramos, em Infância: “Serapião me ensinava complicações da história do Brasil, errando bastante” (= errando muito).
Não é a intenção deste texto rastrear o processo histórico dessa dupla ampliação no emprego e sentido de “bastante”. Desejamos apenas colacionar as orientações de alguns gramáticos e professoes a respeito do melhor emprego da palavra, nos seus diferentes contextos. Em geral, o que se vê é que a segunda ampliação não encontra objeções entre os mestres e manuais, ao passo que a primeira pode ser reprovada por alguns. Vejamos.
NAPOLEÃO MENDES DE ALMEIDA
Bastante varia em número quando adjetivo, isto é, quando acompanha substantivo: Procuração bastante (= que confere poderes judicialmente necessários para determinados fins), procurações bastantes — Fiador bastante (= tem bens suficientes para suprir a falta de pagamento pelo devedor), fiadores bastantes.
É pronome substantivo em orações como: “Possuo de tudo bastante“.
Permanece invariável quando advérbio, isto é, quando modifica adjetivo, verbo ou advérbio: “Estamos bastante contentes” (e nunca: “Estamos bastantes contentes”).
Nota: Não devemos empregar adjetivamente “bastante” com a significação “em grande quantidade”‘; frases como “Encontrei bastantes conhecidos na cidade” não são certas.
(Gramática Metódica da Língua Portuguesa, §358; g.n.)
DOMINGOS PASCHOAL CEGALLA
bastante.
1. Significa que basta, suficiente. Adjetivo que é, concorda com o substantivo: Não houve provas bastantes para condenar o réu. / Três homens são bastantes para realizar esta obra.
2. Não nos parece reprovável empregar bastante(s) com significação de muito(s), pelo menos na linguagem coloquial: Ele tem bastante dinheiro. / Há bastantes aves em nossas matas. / O fato vem se repetindo há bastantes anos. / “Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-Cavalos” (Machado de Assis, Dom Casmurro, cap. II)
3. Bastante, advérbio, invariável, modifica adJetivos, à maneira de muito, porém com menos intensidade que este: As candidatas estavam bastante nervosas. / Os emissários voltaram bastante otimistas. → Equivale a suficientemente em frases como: As duas moças eram bastante conhecedoras da língua inglesa.
4. Usa-se como substantivo, precedido do artigo “o”: Trabalha o bastante para não passar fome
(Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, “bastante”; g.n.)
MANUAL DE REDAÇÃO E ESTILO D’O ESTADO DE SÃO PAULO
(Trecho de interesse, sobre “bastante” como pronome/adjetivo indefinido)
[…] Não use a palavra como sinônimo de “muitos”, “em grande quantidade”, em frases deste gênero: “Havia bastantes (muitas) pessoas na praça”; “Bastantes (muitas) escolas aumentaram as mensalidades”. (g.n.)
MANUEL SAID ALI
(Trecho de interesse, tratando “bastante” como advérbio)
Qualificativos cuja maior ou menor intensidade se assinala com os advérbios muito, pouco, mais, menos, bem, mal, tão, bastante, assaz, enunciam-se após os ditos advérbios. “Bastante” precede geralmente ao adjetivo; se retoma o sentido do verbo ‘bastar’, e tem complemento, pode empregar-se em segundo lugar: […]
◽Ter bastante felicidade.
◽Receber bastante dinheiro [ ou: ] dinheiro bastante para pagar as dividas.
(Gramática Secundária, p. 200)
EVANILDO BECHARA
Como adjetivo, quer dizer ‘que basta, que é suficiente’ (concorda com o substantivo a que se refere) […].
Usado como pronome indefinido (concorda com o substantivo a que se refere), significa ‘em quantidade indefinida, mas elevada; muito’: “A gramática traz bastantes exemplos de uso”; “Nós trouxemos bastante cachaça.” (Herberto Salles, “A emboscada”, Os melhores contos brasileiros de todos os tempos).
Como advérbio, bastante (= em quantidade, grau ou intensidade elevada) é invariável: “Era uma véspera de Natal, bastante quente, de um céu muito claro.” (Marques Rebelo, “Stela me abriu a porta”, Os melhores contos
brasileiros de todos os tempos); “Devia ser bastante moço ainda, talvez tivesse a idade exata de ser seu filho.” (Lúcio Cardoso, “Acontecimento da noite”, Os melhores contos brasileiros de todos os tempos).
Também é usado como substantivo, precedido do artigo “o” (o bastante = o suficiente): “O saldo minguava, mas ainda tinha o bastante para as aulas de inglês, um mês no máximo.” (Sonia Rodrigues, Fronteiras).
(Novo Dicionário de Dúvidas da Língua Portuguesa [colab. Shahira Mahmud], “bastante”)
CONCLUSÃO
Parece-nos que aceitar o emprego adjetivo de “bastante” como indefinido, a significar “numeroso”, “em grande quantidade”, é caminho sem volta. Em tal situação, imprescindível é que concorde com o substantivo a que está ligado: “Coma bastantes frutas”.
Tenho para mim que o maior problema em alastrar construções como “ontem vi bastantes casas” está numa ambiguidade hoje já nem percebida, que acarretará, com o tempo, o apagamento de um dos sentidos. Entre significar “ontem vi casas suficientes” e “ontem vi muitas casas”, nossa mentalidade preguiçosa passa paulatinamente a associar o adjetivo “bastantes” tão somente ao segundo sentido, com o sacrifício desnecessário de uma idéia mais sofisticada e expressiva. Hoje já rareia o emprego próprio, originário de “bastante”.
“Bastar” não encontra correspondente à altura em um monstrengo comprido e sibilante como “suficienciar”. É mais breve, mais sonoro, mais expressivo. Evoca uma história própria, talvez ligada à palavra grega para bengala ou bastão — O que é o que é: quadrúpede na aurora, bípede sob o sol, trípede na noite fria?
Pensemos em “basto”. A cabeleira basta é cheia, mais que suficiente, mas não ainda absurda como guedelha ou grenha. A floresta basta tem uma compacidade e vida que não podem ser traduzidas por “grande” ou “vasto” — este sim um herdeiro do latim clássico, e com sentido original interessantemente oposto à idéia de grande volume: “vastus” aparenta-se ao nosso devastado e ao inglês wasted, para significar aquilo que é amplo apenas na medida em que é amplamente vazio e incultivado. (Lembre-se disso quando ler que tal ou tal celebridade universitária possui um “vasto currículo!)
É certo que “abastado” e “bastança” (ou “abastança“), remetem ao muito e ao excesso. Mas parecem ter também uma referência inolvidável à idéia de uma quantidade necessária e suficiente, de modo que ainda não se perdeu o eco do longínquo bastar. “Locupletar(-se)” parece estar um passo além na escala dos excessos, acrescentando um não-sei-quê-a-mais aos níveis anteriores de completude: completo → repleto → locupleto.
ENFIM. Ao ligar o adjetivo “bastante” a algum substantivo, devemos ficar atentos à concordância de número. E devemos pensar sempre se enriquecemos a língua com um sentido nítido e próprio, ou se a empobrecemos mergulhando a palavra mais específica no campo da mais genérica (“muito”).
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