Se você já evitou dizer “nem sequer” por pensar que a construção é redundante, saiba que não é bem por aí. Pelo menos segundo o respeitado gramático Napoleão Mendes de Almeida, cujo Dicionário de Questões Vernáculas (verbete “sequer”) citamos:
[ Sequer = ao menos ]
“Sequer” significa “ao menos”, “pelo menos”, mas não significa “ao menos não”, “pelo menos não”. por outras palavras, “sequer” não tem por si sentido negativo; deve ser empregado em orações em que já existe negação. […]
Vejamos o correto emprego de “sequer” nesta passagem de Camilo (Bispo do Grão Pará, Memórias, pág. 37): “... a quem o governo, sequer, não concedia defender-se”. Fôssemos imitar a estropiada redação que de quando em quando vemos em jornais, teríamos de condenar Camilo por ter posto um “não” após “sequer”.
Não é português redigir “Meu filho saiu para o colégio e sequer pude despedir-me dele“; corrija-se para “… e não pude sequer…” ou, à Camilo “e sequer não pude…”.
[ ✅ Nenhum sequer, Não sequer, Nem sequer ]
Outros exemplos do correto emprego de sequer:
- Os exércitos, ainda em via de organização, não estavam sequer prestes para combate;
- O mais desgraçado dos homens é o que não tem sequer por si o olhar compadecido dum cão;
- Nem um só jornal, político ou literário, fez a mais simples menção deste acuradíssimo trabalho, ou anunciou sequer a sua publicação.
Sem sentido — e geralmente acompanhado de outros erros que atestam a fraqueza gramatical do redator — aparece “sequer” em passagens como estas:
- Na verdade, sequer as provas podem ser consideradas difíceis;
- Os índios sequer foram avisados;
- Eles sequer receberam esclarecimentos;
- Ele sequer falava comigo.
[…]
Muito bem procede o escritor que redige:
- Nenhum dos vocabulários oficiais traz um composto sequer…
- A notícia de que o conselheiro nem sequer havia entrado em contato com os presos…
- … classificou um candidato que não havia sequer comparecido às provas.
[ Sequer = advérbio de intensidade que entra em orações já negativas ]
Resumindo: “Sequer” é advérbio de intensidade, que entra em orações negativas. Seu emprego em orações positivas constitui erro idêntico ao de “absolutamente” com sentido negativo.
[NOTA.: os títulos entre colchetes são acréscimos nossos.]
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