No alto daquele ermo está uma bela ermida,
2 está uma devota nela, serva da Virgem Maria.
Uma vizinha da porta um testemunho lhe erguia,
4 ela que andava de amores c` um sacerdote de missa.
Sacerdote apaixonado, ela paixão não na tinha.
6 Vem no marido de fora. –Boa seja a vossa vinda,
que me contas, meu marido, que vai lá por essa vila?
8 –Que te hei-de contar, esposa? Que te hei-de tirá` la vida.
–Que ma tires, que ma deixes, eu confessar-me queria.
10 Marido, se me matares, enterra-me na ermida,
na capela de Santana, aos pés da Virgem Maria.
12 Pejada de sete meses, já para os oito corria;
nove meses acabados, belo cantar lá se ouvia.
14 Foram ver à sepurtura, toparam-na assucedida,
com uma menina nos braços, chamada Ana Maria.
16 Vem no lavrador de fora, muito triste, à maravilha.
–Perdoa-me, minha esposa, perdoa-me, esposa minha.
18 –Como te hei-de perdoar, se a tua alma está perdida?
A minha alma está na glória, os anjinhos lhe assistiam.–
20 Foi-se o lavrador embora, muito triste à maravilha,
encontrou um probezinho, a esmolinha le pedia.
22 Levou-o p`ra sua casa, p`r` à melhor sala que tinha;
mandou-le fazer a ceia do melhor manjar que tinha;
24 pu-lo consigo à mesa, o probinho não comia;
mandou-le fazer a cama da melhor roupa que tinha:
26 por baixo lançóis de renda, por cima cambraia fina.
Era meia-noute em ponto, já o probinho gemia;
28 pus-se a pé o lavrador, foi ver o que o probe tinha;
topou-o crucificado numa cruz de prata fina.
30 –Prupara-te, lavrador, que é chegada a tua hora;
prupara-te, anda comigo para o reino da glória.–
Fontes: Site: <https://depts.washington.edu/hisprom/optional/balladaction.php?igrh=0165>, onde há o registro de diversas outras variantes // Livro: O essencial sobre romanceiro tradicional, de J. D. Pinto-Correia.
