O lavrador da arada (ou: Devota caluniada) – Romance tradicional português

    No alto daquele ermo    está uma bela ermida,

  2    está uma devota nela,    serva da Virgem Maria.

    Uma vizinha da porta    um testemunho lhe erguia,

  4    ela que andava de amores    c` um sacerdote de missa.

    Sacerdote apaixonado,    ela paixão não na tinha.

  6    Vem no marido de fora.    –Boa seja a vossa vinda,

    que me contas, meu marido,    que vai lá por essa vila?

  8    –Que te hei-de contar, esposa?    Que te hei-de tirá` la vida.

    –Que ma tires, que ma deixes,    eu confessar-me queria.

  10    Marido, se me matares,    enterra-me na ermida,

    na capela de Santana,    aos pés da Virgem Maria.

  12    Pejada de sete meses,    já para os oito corria;

    nove meses acabados,    belo cantar lá se ouvia.

  14    Foram ver à sepurtura,    toparam-na assucedida,

    com uma menina nos braços,    chamada Ana Maria.

  16    Vem no lavrador de fora,    muito triste, à maravilha.

    –Perdoa-me, minha esposa,    perdoa-me, esposa minha.

  18    –Como te hei-de perdoar,    se a tua alma está perdida?

    A minha alma está na glória,    os anjinhos lhe assistiam.–

  20    Foi-se o lavrador embora,    muito triste à maravilha,

    encontrou um probezinho,    a esmolinha le pedia.

  22    Levou-o p`ra sua casa,    p`r` à melhor sala que tinha;

    mandou-le fazer a ceia    do melhor manjar que tinha;

  24    pu-lo consigo à mesa,    o probinho não comia;

    mandou-le fazer a cama    da melhor roupa que tinha:

  26    por baixo lançóis de renda,    por cima cambraia fina.

    Era meia-noute em ponto,    já o probinho gemia;

  28    pus-se a pé o lavrador,    foi ver o que o probe tinha;

    topou-o crucificado    numa cruz de prata fina.

  30    –Prupara-te, lavrador,    que é chegada a tua hora;

    prupara-te, anda comigo    para o reino da glória.–

Fontes: Site: <https://depts.washington.edu/hisprom/optional/balladaction.php?igrh=0165>, onde há o registro de diversas outras variantes // Livro: O essencial sobre romanceiro tradicional, de J. D. Pinto-Correia.

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