Trecho em língua galego-portuguesa (na grafia reintegracionista moderna), conforme transcrito no livro Método Prático de Língua Galego-Portuguesa, do professor José-Martinho Montero Santalha (p.180)
Ilhas dos mares arábigos (Álvaro Cunqueiro)
Gutor, Babarom e Taprobana som três ilhas que nom hai, e estám entre Bengala e ilha Java.
Gutor nunca se viu, e nom se sabe quem a batizou, pero a oitenta léguas de Cambetum hai que dar umha virada a SE [sudeste] para passá-la, e os que se riem de nós os senhores pilotos de Arábia por fazer esta reveréncia, nom se precatam de que nom haverá ilha, pero hai o nome e o erre em que remata é rasgueado, e poderá nom chocar um coa ilha, pero pode perder-se contra o nome, que esse ninguém o nega.
Babarom é umha ilha que está escondida. Escondeu-se de seu, numha baía bengali, por jogar co primeiro piloto dos arábigos, Sidi Abdalá Altanabi, e caiu o seu escondite na saída dum rio mui herveiro, e medrarom arredor da ilha
hedras e junqueiras, até cingi-la de todo, e agora está ali presa e nom pode volver ao seu assento. Bastariam dez homes com foucinhos umha manhá para ceivá-la, pero ninguém ousa, que baixando a ilha a Malaca, faria reverter o mar
e muitas vilas que agora hai ficariam sob as águas. Pero isso si, a Babarom tamém se lhe respeita o seu sítio no mar, e cada sete anos, para interromper a possessom, os pilotos temos que ensaiar que chegamos a Babarom e traficamos. Fai-se umha feira no mar e tiram-se foguetes.
Taprobana nom é que propriamente nom a haja; o que passa é que é navegante, e hoje está aqui e manhá acolá, e se vás coa tua nau e ela está fora do seu sítio do mapa, aparta-se e tam aginha as mais das vezes que nem se chega a ver, agás que seja noite, que dá luzes; nom incomoda nada no mar a ilha Taprobana. Pero se vás coa tua nau e te metes onde diz o mapa que cai, vem ela e pom-se no seu acougo, e entom embarrancas, e tenhem-se dado casos que naus já iam tam metidas no assento de Taprobana, e a ilha nom as vira porque, ponho por caso, havia brêtema de cedo, que vindo Taprobana a assentar-se rapidamente ao precatar-se, aparecerom no cume dos montes, ou na praça dumha vila, ou numha arrozeira, e entom o rei de Taprobana queda-se com todo o que leva a nau e manda açoutar o piloto. Assi que hai que navegar entre Columbo e Malaca como se a ilha Taprobana estivesse no seu cum farol aceso.
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