P’ – V. Repetição e rivalidade

Conversávamos outro dia — tudo bem, já faz alguns anos — sobre ler sempre com um lápis na mão.

Hoje acrescento que, “honestamente” (como gosta de dizer o ChatGPT), não seria má idéia ler com uma caixa de lápis coloridos ao lado. Vejamos por quê.

Dentre todos os recursos da escrita que podem ser usados pelo autor em benefício da precisão expressiva e, portanto, do atingimento de suas maiores intenções com o texto, a REPETIÇÃO estratégica, proposital e controlada de palavras tem-se-me revelado estratégia cada vez mais importante e mal-compreendida.

Substituir as palavras repetidas“: eis uma das formas mais fáceis de você transformar o momento da revisão do seu texto num exercício de inteligência artificial. Escrutinar linha após linha em busca das repetições, depois pedir ao computador um sinônimo para a palavra repetida, até, enfim, eliminar todas as repetições! Algumas delas fatalmente serão remediadas com vocábulos que você não conhece e nunca usou.

Quando na verdade a repetição de palavras pode ser o que de mais importante acode ao autor na construção de seu raciocínio!

Repetem-se palavras por falta de criatividade, sim. Mas não só. Reptem-se palavras para fixar conceitos, repetem-se palavras para evidenciar frases (e idéias) em paralelismo; repetem-se para amarrar estruturas como quiasmos ou duplicações, e repetem-se até para desgastar a própria palavra repetida, esvaziá-la ou ironizá-la.

Se lêssemos os bons autores com uma caixa de lápis de cor por perto, para sublinhar de verde ou cor-de-rosa as palavras idênticas ou de mesmo radical, ficaríamos surpresos com a variedade de usos sutis que podem ser dados à repetição.

Tomemos este trecho que recortei em 2016 para incorporá-lo à minha coleção de figurinhas:

Uma leitura com lápis de cor coloca instantaneamente em evidência uma profusão de repetições precisas e calculadas:

As palavras em duplicidade são tantas que quase me faltaram cores. Repete-se, de mais a mais, a estrutura dual “[Nenh]uma…. outra“, que sublinhei para não poluir ainda mais o visual.

Muito que bem. Teria o maior escritor brasileiro faltado à aula de Flaubert ou de Drummont na escolinha de escrita criativa? Teria sido negligente o autor nesse conto “Incorrigível“, que não ganhou a honra de figurar nas suas brilhantes coletâneas publicadas de 1980 em diante (a começar por Papéis Avulsos)?

Não, não. Não, não.

Fica claro aqui que a repetição é calculada. Tem papel indispensável na variabilidade do estilo e, principalmente, na construção da imagem psicológica da história contada.

Além de construírem um encadeamento quase investigativo na sucessão de frases, seduzindo e prometendo revelar o mistério da carta e da cólera, precipitando o leitor sempre e sempre à frase seguinte, as palavras repetidas também reforçam (quase ad nauseam) a imagem de dualidade especular, que é a essência da mensagem do trecho, e é o cerne do conflito do conto como um todo.

A repetição chega no seu auge com “causa. A causa” — apenas um “A” no meio funcionando como plano de espelho.

A revelação dessa “causa” também é o momento de a rivalidade entre as duas damas sair do plano de fundo, apenas sugestivo, e passar ao primeiro plano, da enunciação explícita, como num arranjo sinfônico em que o tema vinha sendo insinuado no fundo antes de preencher toda a música.

Nesse momento entram em jogo os “belos olhos” do cavalheiro (é quase como se ele tivesse um para cada moça, sem deixar de tê-los belos!), bem como a repetição do “uma… outra…” e, por fim, a insistência na palavra “ambas“, cujo conteúdo semântico aponta simultaneamente para “dualidade + partilha de condição + feminino“. Agora nos importa menos o número de vezes que “ambas” aparece, e mais o fato de que essa pequena palavra, por si só, já aglutinou todo o sentido das repetições anteriores. Contém em si toda a duplicidade, e a triplica.

Depois de usar os lápis coloridos, é hora de pegar grafite e sulfite para um esquema:

Ei-lo. Mesmo num conto que não ganhou a predileção de seu autor, temos este grande momento, o ponto quase sublime da aplicação estilística, que pode não ser sempre calculado, mas é (pelo menos) intuitivo ou intencional: Nele, a forma do texto não diverge do assunto, mas o realça e quase o reedita — e o assunto não é qualquer assunto, mas um símbolo psicológico e um drama vivido por uma pessoa.

Se você quer que os leitores mergulhem no seu texto (seja ou não ele uma ficção), não deixe de criar esse sentimento da presença de uma experiência humana partilhável. E não deixe de empregar todos os recursos de vocabulário, de gramática e de engenharia disponíveis para realçar e tornar ainda mais viva essa presença.

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