O livro tem 134 páginas e apresenta o texto de seis palestras dadas por Northrop Frye em 1962. A diagramação é amigável, como tem sido em todas as edições da Vide Editorial que eu comprei. Há bom espaço para anotação nas margens, e quase todas as citações de obras literárias ao longo das palestras nos são apresentadas na língua original, seguidas de uma tradução para o português.
No conteúdo, o livro cumpre o que o título promete.
As duas primeiras aulas destinam-se a apresentar a visão do autor sobre a linguagem, que ele concebe em três níveis. Depois (i) da linguagem da consciência, da auto-expressão e da conversa corriqueira, o ser humano, ao começar a interagir com os outros e com o mundo, desenvolve (ii) a linguagem das habilidades, do conhecimento prático, esta em jogo na troca de informações sobre o real, na ciência e na história. Para além do real, porém, há o mundo como morada da experiência existencial humana, um mundo que é criado pela imaginação, pela atividade criativa da mente; para falar deste mundo muito mais amplo e livre, haveria (iii) a linguagem da imaginação, das artes e sobretudo da literatura.
As palestras terceira e quarta tratam de apresentar essa terceira linguagem, a linguagem da imaginação. Ela não é propriamente do reino do imaginário, mas serve à produção do que Frye chama de “imaginativo”, um conceito que reaparece bem no final do livro. Nestas duas palestras, Frye coloca perguntas como “que tipo de realidade está presente na literatura?”, e vai fundo na investigação das relações entre essa realidade e a produção dos escritores. Creio que nestes capítulos três e quatro há dados importantes para quem quer entender as ideias de Frye; pode ser, por exemplo, uma porta de entrada para encarar a “Anatomia da Crítica”.
Nas aulas finais, o autor dedica-se ao que chama de um “teste prático”, que é pensar no modelo de educação que poderia ser obtido ao levar em conta a visão sobre linguagem, imaginação e literatura que as palestras anteriores trouxeram. No quinto capítulo, temos o esboçar-se de um programa de ensino — que, como não está em voga nas nossas escolas, pode transformar-se num excelente programa de autoeducação do imaginário (é isso que venho tentando fazer, à margem do que encontrei na universidade). Na sexta e última aula, o autor traz um debate mais geral sobre a importância do desenvolvimento da faculdade linguística imaginativa para a vida em comunidade.
Recomendo a leitura, tomando notas (como as que consultei para escrever esta resenha). Não será para muitos um livro de cabeceira, nem um livro a ser destrinchado ou estudado, mas pode ser bem interessante para quem gosta de literatura e traz um vigor novo a quem já está dentro de um projeto de ler “aquilo que de melhor já se pensou e disse” — como diria Matthew Arnold, citado por Frye lá pelas últimas páginas deste interessante livrinho.
P.S.: Sobre o conceito de “imaginativo”, está espalhado ao longo do livro, mas creio que este trecho ajude a compreendê-lo:
“Este é o tipo de problema em que agora vamos passar a deter-nos: o fato de que os conteúdos da literatura não são nem reais nem irreais. As palavras ‘imaginário’, significadora do que é irreal, e ‘imaginativo’ significadora do que produz o escritor, referem-se a coisas totalmente distintas.”
– Northrop Frye, A Imaginação Educada, p. 54
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