4.2. Sobre anotar no próprio livro

4.2.1. Introdução

As notas de estudo podem ser tomadas no próprio livro. Esta é uma afirmação que, por óbvio, exclui as anotações de aula e as reflexões soltas; também não serve para “podcasts” e vídeos no Youtube. Aplica-se, porém, a tudo quanto for leitura em papel, e talvez até aos livros digitais.

Sobre estes não tenho muito que dizer; o fato é que ainda não consegui incorporar o sistema de anotações do Kindle à minha rotina de trabalhos, e continuo usando lapiseira e tiras de papel. Restrinjo-me aqui aos livros impressos.

Mortimer Adler faz em seu excelente Como Ler Livros uma recomendação pormenorizada quanto às anotações que o leitor inteligente deve fazer nos livros que estuda. Para Adler, tomar um livro e “torná-lo seu” não é inutilizar o verso da folha de rosto com um enorme carimbo de ex libris, como fazem os colecionadores. Para que se torne seu, você deve lê-lo e marcá-lo, ocupar os espaços em branco com suas reações, imprimir-lhe seu pensamento, dialogar com ele.

4.2.2. O método de Mortimer Adler

Recomendo muito a compra de Como Ler Livros. Se você ainda não tem um método de leitura, entender o exposto por Adler e começar aplicando-o a duas ou três obras é um bom caminho para aprender a estudar. Se você já tem processos de trabalho próprios, o livro com certeza lhe ajudará a aprimorá-los e a testá-los.

O roteiro apresentado por Adler começa (grosso modo) pela inspeção de contracapa, orelhas, sumário, introdução, bibliografia e conclusão. Trata-se de uma leitura de quinze minutos, meia hora, em que um pouco de atenção e experiência poderão deixar claros ao estudante diversos aspectos da obra inspecionada: é uma radiografia do livro.

Em seguida, o autor propõe novo nível de leitura, mais detalhado, em que se fará uma análise dos “termos” utilizados pelo autor e das “proposições” constantes do livro. Tal procedimento permitirá ao leitor ir desenhando aos poucos a estrutura argumentativa ou narrativa, até chegar à forma final da obra e poder proceder a uma inevitável — e imprescindível — apreciação crítica de seu conteúdo.

4.2.3. “Meu fichamento é a minha biblioteca mesma”

O método de Adler requer disciplina, e é exatamente por isso que vale a pena conhecê-lo tentar aplicá-lo. Mas o que nos interessa para o presente artigo é dizer que Adler recomenda registrar no próprio livro toda essa “leitura analítica”. Para tanto, prescreve-nos com exatidão em que parte do impresso devemos anotar os “termos”, onde elencar as “proposições”, que marcações fazer nas margens, em que situações sublinhar um trecho, e assim por diante.

A proposta de anotar tudo no livro tem a vantagem de só exigir do estudante, além do próprio livro, uma lapiseira ou lápis bem apontado (de preferência grafite do tipo 2B para cima). Evidentemente não há problema em usar também papelinhos autoadesivos (post-its) ou uma folha avulsa que acabará dentro do livro, dormindo na estante junto com ele — alguns impressos têm tão pouco espaço em branco que esta solução praticamente se impõe. Mas o essencial aqui é que tudo comece e termine no livro.

Em uma das primeiras aulas de seu Curso Online de Filosofia, indagado sobre como fazia seus fichamentos e como armazenava suas fichas, o professor Olavo de Carvalho respondeu mais ou menos o seguinte (cito de memória): 

Eu não uso fichas: anoto tudo no próprio livro. Sem um lápis na mão, sou um analfabeto, não consigo ler. Meus livros são as minhas fichas; meu fichamento é a minha biblioteca mesma.

Podemos dizer que é um proceder à moda adleriana. De fato, além da praticidade de sua execução, tal método facilita muito a localização das anotações, pois basta encontrarmos o livro para termos na mão todas as nossas notas sobre ele. 

4.2.4. Alguns inconvenientes de anotar no livro

A escolha opção por anotar nos livros tem alguns inconvenientes.

— 1 — O primeiro deles é que você precisa TER os livros. É isso, aliás, que faz Umberto Eco afastar-se de tal sugestão em Como se faz uma tese, recomendando e explorando ao máximo a organização do trabalho por meio de fichas. Se o livro, afinal, é de outra pessoa ou de uma biblioteca, não é possível “torná-lo seu” sem acabar se transformando num vândalo ou num ladrão.

— 2 — O segundo ponto negativo é a mobilização do material, que se torna mais operosa. Dependendo do trabalho que o estudioso queira realizar, terá de reunir dezenas de livros e ficar abrindo um por um, às vezes dois ou três de uma vez, para extrair as informações de que precisa. Não é impossível, mas com um sistema ordenado de fichas — difícil de produzir, é verdade, mas fácil de manipular e transportar —, a mesa fica mais limpa e os livros poderão ser abertos apenas quando o conteúdo fichado não for suficiente.

— 3 — Terceiro inconveniente de anotar no próprio livro: o texto das notas não é “pesquisável” de modo informatizado. Quanto a isso, nem as fichas de papel ajudam, e tal óbice só pode ser superado com a manutenção de notas ou de um fichamento eletrônico. A produção de anotações em arquivos de texto pode ser uma boa saída, em especial porque ali se podem agregar recursos como imagens, quadros e links — além, é claro, de o texto poder ser “pesquisado” um Ctrl+F ou um “Localizar”.  Pretendo falar sobre esse tipo de anotação em outro momento, apresentando o “Livro de Bordo”.

— 4 — Por fim, a proposta de Adler pode deixar o livro poluído e até estragá-lo. Se você é perfeccionista ou quer o livro “como novo” para sempre — eu tenho uma amiga que não abre os seus mais do que 90°, para não marcar a lombada —, se sua letra é grande e garranchosa, talvez as “anotações no livro” não sejam para você. Ademais, livros antigos ou raros, que podem perder valor com a marginália ou se rasgar com o uso da borracha, merecem outro procedimento.

4.2.5. Conclusão

O objetivo destes textos sobre anotações não é indicar um método que supere todos os outros, mas apresentar vários, de modo que o estudante possa escolher um deles ou combiná-los num sistema pessoal. Para tanto, buscamos apresentar o raciocínio por trás de cada método, suas vantagens e desvantagens.

Experimente melhorias; verifique constantemente a função que as notas estão exercendo em seu estudo; não se acomode com processos ineficazes ou excessivamente demorados; simplifique sem preguiça, mas também complexifique sem preguiça; otimize seu trabalho.

Bons estudos e até a próxima!

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