4.4.1. Nada contra os cadernos
Relendo os três primeiros textos desta série sobre notas de leitura, notei que o método mais utilizado em nossa vida escolar, aquele com caderno e caneta, acabou ficando para trás.
Não creio que ele seja inútil ou inferior em todos os contextos. Para escrever a primeira versão do presente artigo, por exemplo, vali-me de caneta azul e caderno de ¼, com capa dura e espiral. É num desses que escrevo quase todas as primeiras versões dos meus textos. Também as frases que coleciono, para estudos de gramática e estilo, são registradas em cadernos pautados simples, para só meses depois serem lançadas numa planilha que mantenho na nuvem.
O caderno tem vantagem sobre as fichas e as notas no próprio livro sempre que o conjunto de anotações tende a ser muito extenso. Não podemos desconsiderar também o efeito do caderno sobre a atenção, como mencionado no primeiro capítulo desta série. O caderno tem, afinal, com suas dúzias e dúzias de folhas em branco reclamando preenchimento, certo poder simbólico, oferecendo-se como fiel companheiro de viagem e constituindo-se produto concreto e indelével do trabalho realizado.
Mas mesmo quanto a esses aspectos penso que podemos dar um passo além.
4.4.2. Que é um livro de bordo?
O que chamo “livro de bordo” é uma evolução digital do caderno comum, e pode inclusive ser confeccionado a partir da transcrição de um caderno comum, assim como de bloquinhos, tiras de papel-rascunho ou fichas.
Falo aqui de um arquivo de texto — mantido na nuvem mas habilitado para edição offline — onde vamos tomando notas, copiando trechos, inserindo palavras-chave, aplicando cores de fonte e realces, sublinhando, negritando e aumentando, colando imagens de mapas, símbolos e obras de arte, trazendo links externos e ligando partes do texto entre si, por meio de “headings” e de “bookmarks”.
É uma grande síntese de nossa aventura por um livro, autor ou tema, uma coleção pessoal de papéis de trabalho organizada do modo mais prático possível. Mesmo sem descurarmos da parte estética, o livro de bordo ainda será um monstrengo difícil de entender para quem olha de fora; para quem o cria e utiliza, porém, ele faz todo o sentido — como faz sentido a organização da escrivaninha para quem trabalha diante dela.
O livro de bordo está no painel principal da máquina de guerra durante toda a batalha.
4.4.3. Vantagens
O livro de bordo é como um caderno, e até poderia ser montado em um caderno. Para tanto, você precisaria do kit escritório completo: caneta, lápis, borracha, tinta corretiva, tesoura, cola líquida, grampeador, canetas e lápis coloridos, fita adesiva, extrator de grampos, “post-its”, régua, além de um computador com impressora, para colar no livro aquilo que for impossível copiar.
Mesmo assim, nosso livro de bordo apresenta algumas vantagens sobre o caderno físico.
— 1 — É editável. Você pode incluir texto novo entre parágrafos antigos, corrigir facilmente os erros de digitação, realçar trechos com um fundo amarelo (“highlight”) e, dois dias depois, desistir do realce. Se colou a imagem de uma Pietà, mas depois descobriu que o autor referia-se a outra, basta trocar a figura.
— 2 — É pesquisável. Todo o texto pode ser pesquisado com um “Ctrl + F” , e o uso de palavras padronizadas (“BRAVO!”/ “RUIM!” etc.), símbolos ( ψ / 🏳 / ⭐ etc.) e “hashtags” (#símile, #erotismo #Camilo) facilita muito tais buscas; facilita mais ainda se combinado a uma seção de legendas e um glossário de palavras chave logo no início do arquivo.
— 3 — Tem alta conectividade. Não falo aqui apenas em consultar e editar suas notas pelo celular, pelo tablet ou pelo computador da firma, no horário de almoço; falo também da conectividade das notas entre si.
Com um hiperlink, A planilha onde controla dos “livros lidos” (baixe meu modelo aqui) pode levar, pela coluna “onde anotei”, ao livro de bordo daquele projeto, e até mesmo a um título específico dentro do livro de bordo — se o projeto for estudar as “Tragédias de Shakespeare”, Hamlet terá um título, Antônio e Cleópatra terá outro, e o Google Docs fornecerá o link direto para cada um deles.
Bem assim, uma menção no livro de bordo às notas tomadas em outro projeto pode conter um link para o ponto exato do texto ali mencionado (as “bookmarks” são para isso); nada impede, inclusive, de aproveitar o momento dessa citação para fazer ali uma referência cruzada (um “contralink” ou “pingback”).
— 4 — É multimídia, mas volta ao analógico. O livro de bordo pode conter imagens, gráficos, tabelas e links para vídeos, blogs, músicas ou planilhas. Mas também pode ser transformado de novo em analógico: basta imprimir tudo e mandar colocar espiral, para ter de volta um “caderno” à moda antiga — para leitura e apontamentos nas margens.
4.4.4. Desvantagens
Considero o livro de bordo uma escolha excelente para projetos longos, complexos e imbuídos de alguma importância elevada para o estudante — como se aprofundar na obra completa de um autor clássico de sua preferência, ou ler um grande poema épico, como a Eneida ou os Lusíadas. Ano que vem montarei um para estudar diversos livros de História do Brasil.
No entanto, sempre é possível apontar alguns inconvenientes.
— 1. — Dá trabalho. Se você achou trabalhosa a proposta de anotar em fichas, pode desanimar de vez diante da idéia de tomar todas as notas no computador — ou: de passar para o computador aquilo tudo que já anotou em papel, quando pendurado nas barras do metrô. Manter um acervo de livros de bordo, com links entre eles e algumas manutenções periódicas é mesmo um trabalho que não valerá para todas as leituras. Isso nos leva à próxima objeção.
— 2. — Pode não servir como sistema de “registro único”. Se não vale a pena montar livros de bordo para tudo, eles não servirão para um sistema unificado de anotações, como as fichas podem ser. Esse obstáculo talvez seja superado com a criação de outro sistema para gerir anotações, que englobe todos os livros de bordo, e mais todas as notas avulsas. Ainda não testei programas como Evernote ou Google Keep, mas creio que o caminho é por aí.
— 3. — Há necessidades específicas de conservação. Analógicas ou digitais, é preciso cuidado para que não percamos nossas notas. Quando se fala de livros de bordo no computador, impõe-se a periodicidade de backups e de downloads para que os arquivos tenham sempre pelo menos uma cópia atualizada e segura. Nossas notas são a expansão de nossa memória, e pelo menos quanto a elas está em nós prevenir a ocorrência de amnésias.
— 4. — Parece frio e asséptico. A penumbra aconchegante do gabinete de trabalho; uma pilha de alfarrábios encapados em couro; um caderno surrado, com manchas de café em formato de anel; luz quente, talvez advinda de um velho candeeiro a óleo; móveis de madeira maciça ao redor; silêncio total. Se esta pode ser a imagem perfeita para o trabalho intelectual, para a maioria será perfeita só como metáfora ou fonte de inspiração. No dia-a-dia, o escritório do estudioso misturará, com esses inevitáveis elementos monásticos, um pouco de covil de gamer e um tiquinho de repartição pública.
Achou o livro de bordo muito frio? Escolha um tipo de fonte grande e bacana, dê uma amarelada na página, coloque na capa do arquivo uma imagem de referência agradável. Crie o ambiente desejado, aproveitando a tecnologia e não a sacrificando.
4.4.5. Conclusão
O livro de bordo é, de tudo o que falamos até aqui, o sistema mais completo e mais informatizado para tomar notas de leitura, mas também tem suas limitações. Forneço neste link aqui um exemplo de livro de bordo, com um alerta importante: não vale a pena basear um livro de bordo em outro; cada projeto tem suas peculiaridades e merece uma estruturação própria, de modo que tenha não só a cara do estudante, mas a cara do objeto de estudo. Isso se aplica, aliás, a todos os métodos expostos na presente série de artigos.
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Chegamos ao fim de uma breve série de textos sobre notas de leitura. Volto a insistir que a idéia de um “método melhor” só faz sentido se considerados os aspectos específicos como a área de estudos, o tipo de projeto e o perfil do estudioso. Existe sim, um sistema ideal, perfeito, de anotar: mas é você quem terá de descobri-lo, ao longo dos anos. Ninguém mais sabe direito quem você é e o que você está procurando.
Obrigado pela leitura, e bom trabalho!
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