12.1. Três benefícios do diário
Todo aquele que dá conselhos a escritores acaba sugerindo o seguinte: escreva todos os dias algumas páginas, mesmo que não sinta vontade de escrever. Alguns sugerem para isso a manutenção de um diário — dê uma olhada neste vídeo do Rodrigo Gurgel e neste livro de Jean Guitton.
Trataremos aqui de três vantagens que um estudante pode obter com essa tecnologia.
O primeiro e mais fundamental benefício do diário, para um aspirante a escritor, é o fato de que ele estimula você a escrever diariamente. O diário ajuda a criar o hábito de escrever, desenvolve a disciplina e o compromisso com a escrita.
O segundo ganho em manter um diário é o registro de idéias que nos ocorrem ou de cenas que vivenciamos. A memória é areia movediça invertida: engole aquilo que fica parado, só deixa salvar-se o que amiúde se agita. Quando a idéia vai para o papel, fugimos do risco da memória, materializamos aquele pensamento — sem nenhum compromisso, é claro, de tomar como definitiva a forma escolhida naquele primeiro registro.
O terceiro é o benefício técnico. A formação do estilo, a assimilação dos bons escritores, o aprendizado da gramática precisam de que se coloquem palavras no papel; requerem experimentos, correções e o não raro sentimento de insatisfação com o que se produziu.
Os dois primeiros benefícios — a disciplina e o registro — são mais fáceis de perceber. O terceiro demora mais a revelar-se, mas cedo ou tarde acaba mostrando seu alcance.
Talvez o aprimoramento do estilo seja mais difícil de notar porque os processos da escrita restam muita vez camuflados depois que o texto está no papel. É um bom exercício escrever (e ler) devotando total atenção às escolhas, às regras e aos blocos que se põem em movimento a cada nova palavra.
Disciplina e hábito. Memória e registro. Exercício e estilo. Estes são três dos benefícios de manter um diário.
P.S.: Se você já aderiu ao diário, procure também criar e alimentar uma relação pesquisável dos textos que andou escrevendo. Saiba como e baixe a planilha clicando aqui.
12.2. A canção do diário
“Querido diário; hoje na escola…”
Não. Aqui não se trata de relatar o dia, embora se possa relatar o dia; nem de confidenciar sentimentos íntimos, embora também intimidades aqui se possam confessar.
O diário serve tanto para rascunhar textos com pretensões literárias como para desabafar a agitação do cérebro. Serve para registrar impressões de leitura e para treinar metrificação. Para organizar listas serve, como serve para ensaiar o início de um conto.
O segredo da dica — “Mantenha um diário!” — é exatamente essa polivalência, essa flexibilidade. O papel aceita tudo, e o seu diário é o papel mais dócil que existe. Ele é a solução para um problema que alguns nem percebem ter: a necessidade de escolher “onde” escrever, sem que a resposta seja “qualquer guardanapo” — porque desejamos produzir um texto que valha mais que um reles guardanapo —, mas sem ter de começar um caderno novo a cada nova idéia.
E o diário abriu-se e fechou-se, e entoou estas palavras, dizendo :
“— Sou parte da tua vida, querido,
sou teu companheiro.
Minhas folhas estão aqui
para o quanto desejares.
A data é tudo o que te peço!
Dá-me a data, que não precisarás de mais nada.
Não demando paginação,
não quero divisórias;
não separo temas
nem reclamo adesivos coloridos.
Vem a mim com tinta, lança-me o que quiseres,
coloca um título, se puderes,
e jamais te esqueças de pôr a data.
Cuidarei do resto por ti, serei o curador dos teus originais.
Lê-me de vez em quando…
… e põe sempre a data!”
P.S.: Clique aqui para ler sobre a data e outras questões relativas ao controle dos originais nos diários.
12.3. Uma objeção que certa feita fizeram ao diário
“Escrever todos os dias, mesmo quando não temos assunto e quando não pretendemos fazer nada com aquele texto, é válido? Não corremos o risco de escrever tantas ninharias que as boas páginas acabem perdendo-se no meio do entulho?”
— I — Sem inventar nada, apenas ouvindo o conselho de diversos escritores e estudiosos, insisto na sugestão: escreva todos os dias, e valha-se de um diário para isso.
O fato de que você “não pretende fazer nada” com o texto não deveria incomodar. Temos milhares e milhares de pensamentos todos os dias, formulamos muitas frases em nossa cabeça a cada hora; e para quase todas essas frases e pensamentos a decisão (às vezes automática) é precisamente esta: não fazer nada.
Escrever é ocasião para pensar, porém com mais duração, com mais espessura temporal e com mais de um sentido: a visão, a audição interna, o tato.
Nem todos os nossos escritos, assim como nem todos os nossos pensamentos, merecerão atenção futura. Mas não é por saber disso que nós deixamos de pensar — nem será por isso que deixaremos de escrever.
— II — Quanto à produção de “entulho”, duas coisas devem ser lembradas.
A primeira é que até os melhores autores publicaram páginas ruins — o que implica terem rascunhado páginas piores ainda! Um escritor de cuja caneta só escorreram rascunhos brilhantes é um escritor que escreveu pouco ou nada; não é, em verdade, um escritor.
O segundo lembrete é o seguinte: não sacrifique um profícuo hábito de trabalho apenas porque não tem um bom método para gerir e controlar seus rascunhos. Se você não consegue localizar um manuscrito bom no meio do “entulho”, deve entender que seu problema é de arquivologia, de almoxarifado, não é um problema atinente à escrita.
Não perca tempo; encontre um método e experimente-o por um semestre. Organizando os originais em planilhas (como proponho aqui), você revisitará os manuscritos ao menos uma vez, meses depois, para julgá-los sob novo prisma, e terá todos catalogados num arquivo pesquisável, para uso futuro.
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Ola! Adoro seus textos. Ah, não tenho conta no wordpress.
Tentei o link de registro de leitura, mas não tinha arquivo anexado.
Obrigada
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Oi Ludmila. Muito obrigado! Desculpe a demora para responder. Eu tentei incluir seu e-mail na lista para receber novas leituras. Deu certo? Abraços
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