R – 14. Gostei do romance, mas a tradução e a revisão do texto têm vários problemas: Diário de um Pároco de Aldeia, de Georges Bernanos

Incapaz de produzir com competência uma apreciação literária, restringir-me-ei nesta avaliação a alguns apontamentos esparsos sobre o livro, com críticas significativas à tradução e à revisão do texto.

⛪ 1) A edição é bastante aprazível. Temos uma capa bonita e simples, com textura agradável às mãos; o livro é de tamanho bom (14x21cm) e tem 285 páginas — as folhas são suavemente amareladas e de uma gramatura maior do que a normal, o que me pareceu uma ótima escolha. As arestas da lombada ficaram um pouco gastas no final da minha primeira leitura, creio que por conta de o material da capa não ser plastificado. Há bons espaços em branco para anotações — recomendo tomar nota dos nomes das personagens.

⛪  2) O livro foi publicado em 1951 e desenvolve-se como um diário (fictício e sem datas) escrito por um jovem pároco em uma aldeia no interior da França; tudo indica que pegamos seu trabalho como padre no início, mas já em andamento. O diário tem uma função específica, pessoal no cotidiano do padre, não é escrito para ser lido por outras pessoas — consequência: nem sempre as personagens nos são apresentadas de forma direta, e temos de ir captando por conta própria, aos poucos, quem é quem.

⛪ 3) No início da leitura é difícil entender o peso de cada acontecimento, o que é mais e o que é menos relevante. A história começa a ganhar corpo, porém, quando percebemos que, além do relevante vigário de Torcy (figura que ocupa lugar de autoridade intelectual e espiritual nos relatos do pároco, com falas dignas de atenção), há um mistério envolvendo o conde, a condessa, sua filha (srta. Chantal) e a preceptora do castelo (srta. Luísa). A cena definitiva, talvez o melhor momento do livro, é a conversa entre o pároco e a condessa, um diálogo longo e a meu ver brilhantemente construído. Depois disso, compreendemos melhor o enredo, ainda que a introdução de algumas figuras novas vá sempre nos renovando a desorientação. 

O “Diário” se apóia sobretudo em conversas, e o narrador-protagonista mostra sempre sua disposição em fazer delas acontecimentos significativos, nunca banais. A cada relato do pároco, aliás, sentimos como se ele estivesse no cimo de uma montanha muito íngreme; para todos os lados, há somente descidas profundas e inevitáveis rumo aos grandes problemas da comunidade, da fé e da vida humana.

⛪ 4) O livro de Bernanos exige certa bagagem cultural para ser bem compreendido. É necessário, no mínimo, que o leitor esteja familiarizado com os principais temas da Bíblia (principalmente do Evangelho¹) e da Igreja Católica; acho até que deixei algumas dimensões de significado passar despercebidas, por falta de maior repertório nesses campos.

⛪ 5) Esta edição tem gritantes problemas de revisão. A impressão que dá é que alguém passou o “corretor automático de textos” do ‘Microsoft Word’, aceitando e rejeitando as sugestões de modo aleatório — ora deixando estragar o que estava correto, ora deixando passar o que estava flagrantemente errado. 

Por exemplo, temos na página 188 « …o coração faltou-me de repente; *pré-testei* uma enxaqueca e parti sozinho » , e é evidente que a palavra desejada era “pretextei” — dei como pretexto, aleguei —, como está no francês (‘prétexté’).  Noutra frase, diante de “suzerain”, escrito com “z” em francês, o tradutor escreveu *suzerano*, quando a ortografia é “suserano”, com “s”.

Em outros casos, há erros de tradução mesmo. Na página 192 está a versão portuguesa do trecho  « mon ami, je crains que ce NE soit la même chose »; esse “ne” não deveria ser traduzido pela negativa, como foi, o que inverteu o sentido da frase. Por sorte, a inversão é tão gritante que o leitor consegue perceber que o texto só faz sentido se entendido ao contrário, ou seja: “meu amigo, temo que seja a mesma coisa” — em vez de *temo que NÃO seja a mesma coisa*, como escreve o tradutor. 

Creio que, sem estar procurando, peguei mais de vinte errões desses, e anotei a maioria no próprio livro (uso a margem interna para esse infeliz trabalho). O meu maior receio, porém, é em relação às trapalhadas que não consegui perceber, prejudicando minha compreensão desse texto que já não é dos mais fáceis.

⛪ 6) CONCLUSÃO: Gostei bastante de ler essa história, porém darei só três estrelas; as duas que faltam são inteira responsabilidade da edição brasileira. Torço para que a editora É Realizações conserte essa.

⛪ NOTA: [¹] Quanto à “base de cultura cristã”, muito me ajudaram as notas de rodapé da Bíblia de Jerusalém – Editora Paulus –, que sempre levei em conta quando, há alguns anos, decidi ler as Escrituras; também me ajudou no entendimento dos Evangelhos um livro que descobri por acaso, chamado “O Evangelho de Jesus” – Editora Mimep –, que consolida os livros de Mateus, Marcos, Lucas e João numa narrativa única, acompanhada de fotografias dos locais mencionados no texto bíblico, além de mapas, linhas do tempo, notas explicativas e uma rica e didática introdução.

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14. Chamada - Bernanos

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