P – 2. Sobre literatura, gramática e escrita

— I — Como aprendo a escrever melhor?

Você não vai aprender a escrever em uma gramática, mas você precisa ler mais de uma gramática; você não vai aprender em um manual, mas você deve ler mais de um manual.

A fonte do aprendizado de redação são os grandes escritores da língua. A leitura, contudo, dos grandes, se não for acompanhada do progressivo assimilar de conceitos gramaticais, ensinará muito pouco e mui custosamente.

Na leitura dos clássicos devem-se buscar fenômenos recorrentes, atípicos, belos e impressivos — e colecioná-los. Porém se devem também pesquisar categorias e regras aptas a dar nomes exatos aos lances de estilo que colecionamos, para que estes se agreguem aos processos gerais de explicação da língua e estejam à mão quando formos escrever e revisar nossos próprios textos.

Do mesmo modo a leitura de manuais, de livros sobre retórica, sobre crítica literária, sobre argumentação e sobre a arte de escrever, ajudará a analisar a arquitetura dos períodos, as metáforas empregadas, a escolha dos adjetivos e dos tempos verbais, o ritmo e o colorido das frases. Mas é preciso ter o quê analisar.

Não há digestão sem suco digestivo, mas também não há digestão só com suco digestivo, sem alimento. O alimento do estudante de português e do escritor é a alta literatura.

A escrita não faz sentido sem a gramática. A gramática não faz sentido sem os grandes autores. Os grandes autores não fazem sentido se não forem vistos como escritores — que em seu ofício reverenciavam a gramática e os mestres da língua. (Perceba que, neste ponto do parágrafo, a lagartixa morde a pontinha do rabo.)

A gramática é muito pouco sem a literatura, mas a literatura precisa ser estudada com algo mais que a boa vontade do estudante: precisa da gramática.

— II —  Estudando gramática

O estudo da gramática na escola nos deixa uma idéia equivocada acerca do que essa disciplina de fato seja.

Gramática é a apreensão em rede — sob a forma de enunciados normativos e explicativos — de uma estrutura viva que, em funcionamento por séculos, manifesta-se na história de um povo como o espírito da língua.

Os “enunciados normativos e explicativos” podem ser chamados de regras. As regras gramaticais só precisam ser memorizadas quando a memorização for a melhor forma de lembrar-se delas no futuro. Quando basta que sejam aprendidas, não se fala em decorá-las — elas impregnam o estudante por outras vias.

Gramática é investigação de convenções orgânicas da língua, e é tentativa de explicar — pela lógica ou pela beleza ou pelas emoções — a formação, a permanência e a excepcional quebra das convenções. É pesquisa sobre um ser vivo, e contínuo, e histórico.

Não há estudo bom de gramática sem o convívio com os que mais amaram e mais respeitaram o espírito da língua. O contato com os grandes escritores é a tarefa fundamental do estudante de gramática, pois é neles que as regras estão sendo postas em funcionamento, por aplicação e por reinvenção

Tal contato não é o de uma aula de literatura, que visa a enquadrar o autor na história das idéias, na série das escolas e movimentos literários, na sociologia, na psicologia, na política. Concentra-se, ao contrário, no processo artesanal de dar às frases uma forma íntegra e justa, adequando linguagem e assunto com a maior perfeição possível, sempre lançando mão do tesouro gramatical legado pelos antepassados escritores.

A gramática encontra, na expressão das grandes idéias e dos grandes dramas humanos, sua razão de ser e também sua razão de vir a ser, de conservar-se e de transformar-se, de criar ex nihilo e de evoluir penosamente. A língua expande-se quando recombina seus recursos para expressar pensamentos e imagens que até então pareciam inexprimíveis.

Buscar a concordância correta num Vieira ou num Machado de Assis não é desmascarar uma “regra opressiva”, mas contemplar uma convenção que se repete em diferentes timbres harmônicos ao longo da história. Umas vezes brilha por si, outras está ali apenas para preparar o momento em que eclodirá a concordância nova, aguda, criadora — já pela mais ousada das obediências, já pela mais correta das transgressões.

— III — Citação final

“Precisamos — diz o Prof. Antônio d’Ávila — reabilitar o estudo da gramática como código do bem falar e do bem escrever. Por onde — continua — aprenderá o estudante a sua língua? Dizem que lendo os bons escritores. Mas quando lê o estudante bons escritores, se a música popular e o esporte absorvem seu tempo e sua alma? Ainda que vá a uma antologia — continua o professor — como pode ele verificar serem bons os trechos e por que, sem a terapêutica do erro, a gramática? Sempre li gramáticas e sempre procurei inteirar-me do correto.”

Como dizia a nobre escritora Júlia Lopes de Almeida, “o primeiro dever do cidadão é falar bem a língua materna, e não pregar-lhe remendos”.

Napoleão Mendes de Almeida,
Dicionário de Questões Vernáculas: “Vernáculo”

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