Este estudo começa com um exercício. Diremos apenas uma palavra, e você buscará, na lousa abaixo, imaginar o objeto correspondente. A palavra é “cristal”.

Fixe, por favor, os traços fundamentais da imagem, como a forma, a cor e o brilho.
Feito isso, o próximo passo é ler um trecho do Dom Quixote, de Cervantes, em que a nossa palavra aparece. Leia sem pressa, prestando atenção à figura do pastor, à paisagem descrita, e, é claro, à palavra que mais nos interessa hoje.
Não tinham andado vinte passos, quando de trás de um penhasco viram sentado ao pé de um freixo um mancebo entrajado à lavradora, ao qual, por estar com a cabeça baixa, a lavar os pés num regatinho, não puderam imediatamente divisar o rosto. Aproximaram-se-lhe tão calados, que não foram dele pressentidos, de atento que estava na sua lavagem dos pés; e tais eram eles, que não pareciam senão dois pedaços de puro cristal entre as outras pedras da corrente. Maravilhou-os a alvura e lindeza daquelas plantas, que não pareciam feitas a pisar torrões, nem a seguir arados e bois, como inculcava o vestuário do dono. (Trad. Castilho e Azevedo)
Percorra uma vez mais o período onde se encontra a palavra “cristal”, e busque imaginar, no quadro abaixo, a aparência do cristal que Cervantes nos apresentou.

Agora vem uma pergunta, e você pode usar o campo de “comentários”, no final do texto, para dar uma resposta franca: Há alguma diferença entre o primeiro e o segundo cristal?
Supomos que haja, e de propósito não demos o texto original em espanhol, que deixa ainda mais evidente um aspecto do segundo cristal:
Y ellos llegaron con tanto silencio que dél no fueron sentidos, ni él estaba a otra cosa atento que a lavarse los pies, que eran tales, que no parecían sino dos pedazos de blanco cristal que entre las otras piedras del arroyo se habían nacido.
Cervantes escreve “branco”, Castilho e Azevedo[1] traduzem “puro”. Mas esse não nos parece um problema de tradução, e arriscamos dizer que uma das principais mudanças que ocorreram do primeiro para o segundo cristal foi exatamente esta: o primeiro era mais transparente, ao passo que o segundo era mais branco — ainda que esta palavra tenha sido omitida pelos tradutores.
Três são as principais teses do presente artigo: (1ª) Cervantes criou uma imagem de cristal adequada tanto à cena quanto ao enredo; (2ª) tal adequação deve-se principalmente às palavras escolhidas; e (3ª) essa escolha foi precisa porque mobilizou os detalhes, palavras e símbolos corretos, sem precisar descrever com exatidão a cor e a forma dos “cristais”.
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Notemos que o texto de Cervantes poderia, se produzido com menos arte, recair em uma comparação gasta, em um clichê: os pés brancos e limpos sendo comparados ao “puro cristal”, como qualquer coisa perfeita pode ser chamada de “pura” e comparada a um “cristal” dentro de uma açucarada simbologia romântica.
Não é essa a estética do Dom Quixote. A descrição não nos faz ver o cristal polido, lapidado, transparente, como uma taça ou um belo pingente. O cristal do excerto é bruto, branco, é cristal in natura, sem com isso deixar de ser delicado e puro. Preciosíssimo embora, é um cristal selvagem.
Essa tensão interior da pedra está presente no trecho como um todo, e até podemos dizer que um cristal assim simboliza a condição autocontraditória de uma pessoa — o mancebo, com seu vestuário de rústico lavrador, mas pés imaculados, não feitos para “pisar torrões”.
No plano cênico também há um tensionamento, agora entre posições: a comitiva assume o ângulo mais adequado para assistir à lavagem dos pés, e para no-la mostrar. Sem saber que é observado, nosso “mancebo entrajado à lavradora” pode exibir sua beleza com naturalidade e inocência. Conquanto leve e sem malícia, há uma erotização[2] desse pastorinho que lava solitário os pés na corrente.
Mas são três palavras o fator decisivo na representação desse cristal novo, belo e rústico — dotado de uma tensão interior que apenas podemos pressentir, mas não capturar. Três palavras que transfiguram a imagem, retirando de vez a melosidade que poderia impregnar o “puro cristal”. Sublinhemo-las:
[…] e tais eram eles [os pés], que não pareciam senão dois pedaços de puro cristal entre as outras pedras da corrente.
A primeira palavra que transforma o Um Cristal é “dois”. Este numeral quebra para cima a unidade, duplicando o cristal e dando-lhe uma dimensão mais material, mais carnal do que o “um”.
A segunda palavra que rompe o Um Cristal é o substantivo “pedaços”. Agora a unidade é quebrada para baixo, em direção ao fragmento. A idéia é de fração, de peça, de uma forma irregular.
A terceira palavra, e que nos parece a mais importante de todas, é o pronome indefinido “outras”. Tal termo é indissociável de “entre” e “pedras”, mas parece-nos que está nele o maior mérito, que é ele o pivô de toda a transformação. É com “outras” que a imagem finalmente se fixa para exercer integralmente seu poder de símile, de metáfora e de símbolo. O narrador nos lembra, com “outras”, que um cristal, antes de ser um artigo trabalhado para o comércio humano, é uma pedra entre outras pedras, pedra como tantas outras menos nobres do rústico regatinho. Com o “outras” já não vemos o transparente simétrico do cristal trabalhado, mas o branco maciço do cristal descoberto, incrustado no meio das rochas, extremamente límpido pela passagem constante da água pura.
“Dos pedazos de blanco cristal que entre las otras piedras del arroyo se habían nacido”.
E se o cristal se transformou, certo é que se também transformaram os dois pés. Quando tentamos olhar de novo para eles, percebemos que se afiguram agora como os próprios pedaços de cristal que brotam de entre as pedras do regato. A figura dos cristais se recusa a transformar-se novamente na figura dos pés, a pureza da brancura natural não é capaz de descer das alturas a que foi elevada em nossa mente.
Eis a imagem! Temos aí símile, porque os pés são comparados ao cristal. Temos aí metáfora, porque o efeito visual gerado pelas palavras faz com que os pés sejam pedaços de cristal. E temos aí símbolo, porque na pureza rústica do alvíssimo cristal que brota das outras pedras encontramos a própria pessoa simbolizada — não um pobre pegureiro mas, como descobriremos, uma linda donzela que fugiu de casa disfarçada de menino!
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Cervantes e os tradutores nos revelam como é possível produzir significações requintadas, mesmo manejando instrumentos cujo valor intrínseco é quase irrisório.
Tendemos sempre a pensar que a melhor maneira de atribuir qualidades ao objeto descrito é pendurar-lhe adjetivos em redor, sem perceber que há formas muito mais sutis, eficientes e baratas de produzir uma boa imagem. Cervantes recorreu aqui a um numeral (“dois”), a um substantivo quase sem forma (“pedaços”) e a um pronome indefinido (“outras”) — acompanhado, se quisermos ser detalhistas, de uma preposição (“entre”) e outro substantivo (“pedras”). São palavras disponíveis a qualquer um, palavras que já estão no vocabulário de uma criança de três ou quatro anos, mas cujo manejo preciso engendrou uma belíssima página de literatura.
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[1] Livro I, cap. XXVIII, tradução dos viscondes de Castilho e Azevedo.
[2] Aqui erotização quer dizer a dinâmica de ver, sem ser notado, alguém fazendo algo que não faria se soubesse que é visto — em especial se esse “algo” realça a beleza corporal.

Que artigo incrível! Uma investigação da linguagem que nunca vi em lugar nenhum. Parabéns pelo seu trabalho, Thiago, creio que ele é como um cristal raro e de muito valor.
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Thiago, fiquei maravilhado com este artigo. Você já pensou em escrever livros ou já escreveu algum?
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Prezado Emanoel,
Muito obrigado pela visita e pelos seus honrosos comentários. Ainda não escrevi nenhum livro, mas é um projeto que está no radar. Tenho trabalhado bastante em um texto mais longo sobre a flexão do infinitivo pessoal no português, espinhoso mas empolgante tópico de gramática e estilo. Pode ser que eu consiga aproveitar a plataforma de autopublicação da Amazon (KDP) para colocar esse material em circulação, como e-book. Darei notícias por aqui!
Um abraço,
Thiago.
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