P – 5. Uma planilha para organizar a escrita e revisão de textos

A planilha abaixo é, como tudo aqui, personalizável. Ofereço-a como um modelo, um norte para quem precisa dar forma ao seu processo de trabalho; ela pode ser mantida no computador, impressa em papel resistente ou reproduzida à mão em fichas pautadas (é como tenho feito).

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– I –

Todos sabemos que é preciso revisar, reescrever, cortar; que o texto cru quase nunca é melhor que o texto preparado. Mas o aprimoramento dos manuscritos, se feito de maneira desordenada, pode engendrar outros tantos desperdícios e equívocos. Cito apenas alguns dos problemas decorrentes da falta de método na releitura e correção:

● A leitura repetida com pouco intervalo torna-se automática; a mente se adapta ao texto e não é mais capaz de ver-lhe os problemas — assim como depois de um tempo já não notamos aquela rachadura no azulejo, ou as falhas na pintura do teto da sala.

● A superexposição pode levar a um estranhamento das palavras, passando a impressão de que são vazias, de que o texto nada tem a dizer; duvidamos de tudo, desanimamos.

● Os sucessivos cortes causam perda de material, que um tempo após a exclusão já não pode ser recuperado.

  A saída parece estar na criação de um processo. Ao transformar o trabalho de revisão em um passo-a-passo, com começo, meio e fim, estabelecemos as condições necessárias para que o texto alcance acabamento satisfatório; propiciamo-lhe os tipos e a quantidade correta de revisões, com o tempo adequado entre elas. Também estabelecemos as condições suficientes para que os escritos estejam em bom estado, o que significa não precisar ir além do programa, nem ficar em dúvida quanto ao resultado. 

Bom ou mau, o texto estará pronto, porque passou pelas etapas que o autor estabeleceu como adequadas. Fazer menos do que isso, ou mais do que isso, é livre escolha do escritor. Pode ser necessário, em casos específicos, mas não pode ser um ato de compulsão ou preguiça, pois estas levam a resultados sub-ótimos.

– II –

Escrever. Algumas vezes o texto já está esboçado no papel ou dentro da cabeça; outras, temos a idéia de uma parte, como um bom início ou um argumento que queremos expor; também não é raro que nos sentemos para escrever sem saber por onde começar. 

Mas é preciso começar por algum lugar, e já aí se impõe uma escolha: escrever no caderno ou no computador? O tempo do papel e caneta nem sempre está disponível, e o computador apresenta diversas comodidades, como permitir escrita célere e edição fácil. Por outro lado, a barra do processador de textos pisca impaciente. A frase imperfeita é rapidamente apagada, condenada a desaparecer e a reaparecer (como se fosse uma idéia nova) pouco tempo depois: novamente a escrevemos, novamente a apagamos… e o ponteiro volta a piscar. 

Para quem não sabe como comece, a tela em branco do “Word” não é o melhor caminho. Se você está com bloqueio criativo, ou busca adquirir o hábito de escrever todos os dias, o papel é um bom amigo — um diário aceita tudo.

Mas mesmo quem escreveu no papel precisará digitar um dia. Isso dá ao texto uma primeira revisão, que pode acontecer semanas, meses ou anos após o manuscrito inicial. Quando for trasladá-lo para o computador, não se afobe; deixe seu original falar, pois muitas vezes a solução que você deu no passado é mais brilhante que a de agora.

Quando o texto é redigido direto no computador, escrita e digitação ocorrem no mesmo ato — as duas colunas da tabela se preenchem juntas. Esse material digitado pode passar por uma primeira releitura, a depender de quão cru esteja. Faço isso com textos difíceis que foram começados na tela e não no papel, mas é opcional. O que vai valer mesmo é imprimir o escrito e deixá-lo descansar por um tempo.

Rui Barbosa sugeria que o texto mais dormido é sempre melhor (lamento não poder dizer de onde tirei essa informação). Stephen King, no seu livro “Sobre a Escrita, recomenda um intervalo de seis semanas entre o término da primeira versão e o início da releitura; seis semanas em que o escritor não lê, nem mesmo toca no texto. Esse me parece um bom prazo para romances, embora eu nunca tenha escrito um. Textos de não ficção, sobretudo os curtos, podem descansar menos: digamos uma semana ou dez dias, para um artigo breve como este que você está lendo. Não é um prazo fixo, e o autor muitas vezes sente, quando olha para o impresso, que este já lhe é estranho o bastante. Quando o estranhamento ocorre, é hora de voltar ao trabalho.

Não preciso falar muito da importância de refundir o texto impresso, pois há sobre isso um artigo específico aqui no blog. Pegue uma caneta colorida e mande ver nos rabiscos, transposições, marginalia; faça tudo o que puder para o texto ficar melhor, e use todos os seus conhecimentos de vocabulário, gramática e literatura para isso. Tenho usado uma caneta hidrográfica vermelha da Pilot, ponta 1mm — a cor é intensa, a tinta líquida e rápida, o preço é baixo.

Ao terminar a refundição do impresso, você vai marcar o quadrinho com um “OK” ou com a data, e deixar de novo o tempo fazer seu trabalho. Retome o impresso depois de alguns dias — uma semana, se for possível — e altere o texto no computador. É importante você não esquecer de nenhuma emenda, e refletir sobre todas elas. No final desse trabalho, o arquivo deve ter poucas marcas de revisão, apenas aquelas sobre as quais você está indeciso. Se não sobrar nenhuma, melhor.

O texto pode passar por um breve período de descanso antes de ser submetido à próxima etapa, a leitura em voz alta. Também já há um texto no blog sobre isso, então reforçarei apenas um ponto: Se soa mal em voz alta, se você não falaria aquilo, evite colocar em momentos importantes do texto. Em discurso direto, só abra exceções quando aquele é um traço característico da fala da personagem. Texto não é palestra, aceita muito mais do que o estritamente “pronunciável”, mas os ouvidos do leitor também trabalham quando ele lê, e às vezes reclamam. Faça as mudanças necessárias com muita atenção — não queremos acrescentar erros bobos agora. Depois de chegar ao fim do texto, retorne ao começo e avalie os efeitos práticos das emendas; não é raro que elas comam ou dupliquem letras, ou imponham a troca do gênero de uma palavra na outra ponta do parágrafo.

Nesse mesmo dia, ou quando preferir, dê uma última olhada no texto. Esta é uma leitura de polimento, ou cata-erros, em que você vai alterar o mínimo possível e vai ficar atento ao pontos críticos: grafias que costuma errar, palavras que o computador pode ter acentuado automaticamente, parágrafos espinhosos que você editou muitas vezes… Nessa leitura, o autor já está familiarizado demais com seu texto, e a atenção torna-se indispensável. O “corretor ortográfico” do Word pode ajudá-lo. Há quem sugira truques como ler os parágrafos na ordem inversa ou ir tomando trechos aleatoriamente, para que o conteúdo memorizado não prejudique o olhar criterioso de quem busca evitar erros gramaticais. Não se engane: podemos ficar hipnotizados com as nossas próprias palavras. Se você duvida disso, visite uma universidade.

O quadro que ofereci tem mais uma coluna, fotografar, e a razão para esse nome é bastante pessoal. Costumo publicar avaliações de livros no sítio da Amazon.com.br; submeto-as a todos os passos descritos acima, e anexo a cada resenha algumas fotografias dos livros. Com “fotografar” quero dizer apenas o seguinte: reúna todo o material necessário para a publicação, como imagens, tabelas, links etc., e dê uma olhada em detalhes como formato de arquivo, erros de digitação, e assim por diante. Quando o texto requer uma formatação específica (margens, espaçamento), conferir esses itens pode fazer parte do “fotografar”. É uma etapa que não tem posição fixa, cada um encontrará o melhor nome e o melhor momento para ela. 

Por fim, chegamos ao publicar: tornar o texto definitivo, encerrar o processo. Depositar a dissertação, postar no blog, anexar o arquivo e submetê-lo ao concurso literário… Não há mistério aqui, apenas dê uma olhada geral para verificar se a formatação e o título ficaram em ordem, se nada se perdeu na hora da impressão ou do copia-cola. E aproveite a sensação de dever cumprido.

– III –

Reler e revisar manuscritos tantas vezes, com tantos intervalos de tempo e de tantas maneiras diferentes, não é uma receita milagrosa, capaz de transformar a mentira em verdade, a ignorância em sapiência, o medíocre em genial. Mas é um processo que nos dá a certeza de que nosso material foi trabalhado com disciplina e método, em estrita obediência ao nosso padrão pessoal de qualidade. 

Desse modo, quando o texto está solto no mundo, não precisamos nos pautar pelas críticas — que nunca vêm — nem pelos elogios — que nunca dizem o que mais queríamos ouvir.

*

NOTA FINAL: De uns tempos para cá tenho percebido que o uso do recurso “controlar alterações“, no Word ou em outros processadores de texto, comporta certo risco que não precisaríamos correr. O que acontece é que o texto deletado fica colorido, riscado, mas continua visível. Com isso não é raro que o olho nos engane, permitindo que não notemos certas palavras que sobram ou que faltam. Os erros de digitação, em vez de diminuir, podem proliferar. Passou o tempo em que eu recomendaria sem restrições o uso dessa função.

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5 comentários em “P – 5. Uma planilha para organizar a escrita e revisão de textos

  1. Opa!
    Em uma postagem eu vi você falando um pouco sobre como usar a “piranha” para fazer uma ferramenta de manter as páginas abertas. Poderia detalhar?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Boa noite, Caetano! Obrigado pela leitura e comentário!

      Antes de tudo, queria ressaltar que esse truque só funciona se o livro estiver em um suporte (como aqueles de bíblia) ou tiver alguma outra coisa fixa atrás (uma placa de madeira, como uma prancheta por exemplo). A “piranha” serve para prender cada lado do livro ao suporte que está atrás.
      Dito isso, vamos à parte artesanal:
      Da última vez, comprei um pacote com umas 10 “piranhas”, dei umas para minha esposa usar no dia-a-dia, e com as outras fiz alguns experimentos. Vamos lá:
      1) Nem sempre dá para arrancar os dentes da “piranha” sem estragá-la. Dependendo do modelo (da medida da mola), ela fica meio frouxa.
      2) Se os dentes da “piranha” não forem muito pontudos, você nem precisa arrancá-los, ela segura bem e só arranha de leve a página.
      3) Se não quiser arrancar os dentes, mas quiser deixá-la menos agressiva, você pode comprar um pacote de feltro autoadesivo (aquele feltro cinza para colocar no pé dos móveis, sabe?). Corta uma tira de 1,5 ou 2cm e “encapa” os dentes da piranha, como se fosse uma placa de silicone para bruxismo.
      4) Você pode derreter um a um os dentes da piranha, com um isqueiro, mas o cheiro não é muito agradável e há risco de incêndio.
      5) Caso consiga arrancar os dentes sem prejudicar a mola (cenário ideal), corte dois pedaços de feltro autoadesivo ou de EVA no formato da “boca da piranha”; um para cada lado. Como o EVA não é autoadesivo, você vai precisar de alguma cola. Pode ser uma fita dupla-face ou um “super-bonder”. É só colar, fazer o acabamento do contorno com uma tesoura, e está pronto!

      Como você vê, não é uma técnica muito elaborada. Um pacote de piranhas deve custar menos de 10 reais; talvez você sacrifique algumas até descobrir o melhor jeito de adaptá-las, mas o prejuízo é pequeno. É uma pena que eu não consiga colocar uma imagem nesta resposta, para exemplificar.

      Abraços!
      Thiago.

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  2. Olá Thiago!
    Queria apenas deixar registrado que me foi de grande utilidade ler o teu artigo. Cheguei aqui depois de ler algumas resenhas tuas na Amazon.com, as quais também me foram bastante úteis.

    Após a leitura aqui, recuperei um pouco do ânimo para revisar o primeiro rascunho do meu primeiro texto de ficção, uma pequena novela escrita há dois meses, e guardada desde então.

    Muito grato pelo conteúdo que produzes e partilhas por aqui.
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Gilvan, boa noite!

      Fico muito contente com o seu comentário e com a notícia de que revisará o rascunho da novela. A planilha pode ajudar nesse trabalho, talvez adaptada da seguinte forma: um capítulo por linha.

      Não se esqueça de me mandar notícias quando o livro vier a público!

      Obrigado pela visita, abraços!
      Thiago.

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