A estratégia de Coppola para fazer esse filme complexo e multifacetado se baseava numa técnica que ele aprendeu quando estudou teatro na Hofstra College, conhecida como “bíblia” (prompt book). Ele começou lendo o romance O poderoso chefão e capturando as partes que repercutiram nele, anotando-as num fichário […]. Mas a “bíblia” não serviu apenas para armazenamento: funcionou como ponto de partida para um processo de revisão e refinamento das fontes para transformá-las em algo novo.
Tratava-se de um fichário com três argolas no qual ele colava páginas recortadas do romance. Era projetado para durar, com ilhós reforçados para garantir que as páginas não rasgassem mesmo depois de muito manuseio. Ali ele poderia acrescentar as anotações e instruções que mais tarde seriam usadas para planejar o roteiro e a cenografia do filme.
Num documentário curto intitulado Francis Coppola’s Notebook, lançado em 2001, o diretor explicou seu processo. Ele começou com uma leitura do romance inteiro, anotando tudo que chamou sua atenção: “Acho importante registrar suas impressões na primeira leitura, porque esses são os instintos iniciais sobre o que você achou bom, não entendeu ou achou ruim.”
Coppola então começou a adicionar suas próprias interpretações, destilando e construindo sua versão da história. Dividiu cada cena de acordo com cinco critérios-chave: uma sinopse (ou resumo) da cena; o contexto histórico; as imagens e o tom para determinar “o estilo geral” da cena; a intenção central; e possíveis armadilhas a serem evitadas – “Eu me esforcei para destilar a essência de cada cena em uma frase, expressando em poucas palavras qual era o objetivo dela.”
Coppola descreveu seu fichário como “uma espécie de mapa rodoviário com várias camadas para eu dirigir o filme e conseguir revisar não só o texto original de Mario Puzo como todas as minhas anotações iniciais sobre o que achei importante ou senti que realmente estava acontecendo no livro.” Nas margens ele escrevia comentários como “Hitchcock”, para lembrá-lo de como o famoso diretor de filmes de suspense teria enquadrado uma cena, ou “Tempo congelado”, para lembrá-lo de desacelerar uma sequência. Ele usou diferentes tipos de anotação para saber no futuro quais partes de uma cena eram as mais importantes: “Conforme eu lia o livro e anotava nas margens, usava cada vez mais canetas e réguas, e as partes onde as anotações eram mais tortas e cheias de garranchos sinalizavam que o nível de tensão e emoção era maior, então a quantidade de tinta na página me dizia quais cenas eram mais importantes.”
Tiago Forte. Criando um Segundo Cérebro: Um método comprovado para organizar sua vida digital e desbloquear seu potencial criativo (pp. 135-137). Sextante. Edição do Kindle.


Interessante. Não sabia.
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