[Curtos] O talento conduz com um chicote

Os romancistas gostam de escrever romances da mesma forma que o agricultor gosta de seguir o arado. Olham para o seu trabalho como uma “maçada”; alguns dos mais bem-sucedidos odeiam sua profissão, e alguns dos maiores artistas da ficção nunca se encontraram em condições de escrever salvo se sob absoluta compulsão exterior. Enquanto alguns dos romancistas menos talentosos são conhecidos por encontrarem um brando prazer em seu trabalho. Assim, o principiante que começa com ardor e descobre que o entusiasmo acaba rápido não deve deduzir daí que não tem vocação; antes, deve entesar-se, morder os dentes e cerrar as mãos para manter o esforço contínuo. O impulso misterioso que o levou a começar é uma prova mais segura de que tem vocação, do que o desgosto e a repulsa no meio da tarefa são uma prova de que não tem. Há momentos no dia de trabalho de todo romancista em que ele sente profundamente que qualquer coisa — tapar buraco de estrada, fazer compras, invadir casas — seria melhor do que essa eterna tortura do cérebro. Mas esses momentos passam.

A melhor prova de uma vocação pelo romance é o fato da abstenção da escrita ficcional produzir uma sensação de inquietude, insatisfação e culpa. Um talento nunca persuade ou encoraja seu possuidor — ele o conduz com um chicote.”

Arnold Bennett, Como se tornar um escritor: um guia prático, p.75

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