NOTA DO SITE: O trecho a seguir apresenta duas camadas de dificuldade. A primeira é a distância entre a língua atual e o [galego-]português quatrocentista, com suas peculiaridades ortográficas e morfossintáticas. A segunda é a apresentação do texto, que segue à risca as características do manuscrito-base, numa edição “diplomática” (= que busca reproduzir com exatidão o diploma consultado). Optei por oferecer a vocês uma experiência imersiva, a fim de aguçar a curiosidade por essa página ao mesmo tempo difícil e saborosa da história do nosso idioma.
Como os da Mesa Redonda houverom da graça do Santo Graal
Grande foi a lidice e o prazer que os cavaleiros da Ta´vola Redonda houverom aquele dia, quando se virom todos de consu~u~. E sabede que, depois que a Ta´vola Redonda foi começada, que nunca todos assi forom assu~ados, mas aquele dia sem falha aveo que forom i todos mas depois nunca i er forom.
Contra a noite, depois de ve´speras, quando se assentarom aas mesas, ouvirom vi~ir u~u~ torvam tam grande e tam espantoso que lhes semelhou que todo o paaço cai´a. E logo depois que o torvam deu, entrou u~a tam grande claridade que fez o paaço dous tanto mais claro ca era ante. E quantos no paaço siam logo todos forom compridos da graça do espi´rito Santo. E começarom□s’a catar u~u~s aos outros e virom□se mui mais fremosos mui gram peça que soiam a seer; e maravilharom□se ende muito desto que aveo e nom houve i tal que pudesse falar por u~a gram peça, ante siam calados e catavam□se u~u~s aos outros. E eles assi seendo entrou no paaço o Santo Graal, cuberto de u~u~ [ei]xamente branco; mas nom houve i tal que visse que[m] no tragia. E tanto que entrou i foi o paaço todo comprido de bo~o~ odor, como se todalas espe´cias do mundo i fossem. E ele foi permeo do paaço de u~a parte e da outra, e arredor das mesas. E per u passava, logo todalas mesas eram compridas de tal manjar qual em seu coraçom desejava cada u~u~. E depois houve cada u~u~ o que houve mester a seu prazer, saiu□se o Santo Graal do paaço que niu~u~ nom soube que fora dele nem per qual porta saira. E os que ante nom podiam falar falarom entam. E derom graças a Nosso Senhor que lhes fazia tam grande honra e que os assi confortara e avondara da graça do Santo Vaso. Mas sobre todos aqueles que ledos eram mais o era rei Artur, porque maior mercee lhe mostrara Nosso Senhor que a niu~u~ rei que ante reinasse em Logres. Desto forom maravilhados quantos i eram, ca bem lhes semelhou que se lembrara Deus deles, e falarom i muito. E el□rei disse aos que cabo dele siam:
– Certas, amigos, muito devi´amos a seer ledos que Deus nos mostrou tam gram signal de amor que em tam bo~a festa como hoje, de Pinticoste, que nos deu a comer do seu santo celeiro.
(Título 25, fólios 7d-8b)
Fonte: https://cipm.fcsh.unl.pt/corpus/texto.jsp?t=d&id=19242 – Versão do CIPM revista e digitalizada com base na edição de NUNES, Irene Freire (2001) A Demanda do Santo Graal. — publicada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa.

Muito legal mesmo esse trabalho, parabéns. Entre outros tantos prazeres, esse tipo de exercício (e sua leitura) é muito bom para entendermos as soluções gramaticais da época, a forma como os autores procuravam representar os sons, a maneira como a língua portuguesa foi se estabelecendo. É o exemplo desse trecho.
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Pretendo trazer também algum trecho em galego moderno, como curiosidade e exercício. É mais que uma língua irmã, é uma gêmea não-idêntica do português.
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